terça-feira, 5 de dezembro de 2017

10 razões para amar meu grupo de apoio



Esta é minha declaração de amor a todos os pais e mães que conhecem a dor de perder um filho. Eu quero que eles saibam porque eu os amo.

Eu amo meu grupo de apoio porque…

1- Eles me chamam de Mãe.
Depois de perder uma criança, você deseja a chance de ser a mãe ou o pai que você sonhou que seria. Estas são as pessoas que veem você como você é; os pais do seu lindo bebê.

2- Eles são criativos.
Eu fico constantemente impressionada com o talento que o grupo de apoio possui. São pintores, fotógrafos, escritores, artistas visuais, joalheiros entre nós. Cada faísca de sua criatividade é iluminada pelo amor aos seus filhos.

3- Eles são atenciosos.
Mesmo quando o seu próprio fardo é pesado, eles nunca hesitam em ajudar os outros a carregar sua carga.

4- Eles olham para a vida de forma mais bonita.
Olhar através das lentes de um coração partido faz você enxergar coisas extraordinárias.

5- Eles não me deixam acomodar.
Quando a morte de um filho toca a sua vida, você percebe o quão importante é nunca deixar nada para trás. Meu grupo de apoio quer que eu aproveite cada oportunidade e que eu nunca sacrifique o meu amor próprio.

6- Eles estão sempre lá. Literalmente.
Nosso grupo de apoio abrange o globo. Existe um membro em cada fuso horário. Isso significa que, a qualquer momento, alguém está lá quando a gente precisa.

7- Eles são ferozes. Sério.
Não mexa com a gente. Nós somos o grupo de pessoas mais fortes que eu conheço.

8- Eles são vulneráveis.
Todo dia eles encaram o mundo de braços abertos e emoção em carne viva. Ser vulnerável assim, requer um poder além da medida.

9- Eles são os pais mais maravilhosos.
Ser mãe e pai de uma criança que você não pode abraçar ou ver é o trabalho mais difícil que existe, mas o meu grupo de apoio faz isso com muita graça e ânimo. Nossos bebês são muito amados.

10- Eles conhecem.
Minha história, minha dor, meu amor pelo meu bebê; eles sabem de tudo isso.


Autoria: Rachel Whalen – publicado no blog An Unexpected Family Outing

domingo, 26 de novembro de 2017

Festas de final de ano… como sobreviver a elas sem meu bebê?



Ainda não estamos em dezembro, mas o Papai Noel já chegou aos shoppings, as luzes piscando já estão nas lojas, os comerciais de TV já mencionam o grande dia de estar em família, celebrar a vida e o amor, dar presentes etc etc etc.

E a gente está como? Aterrorizada! Com medo, frio na barriga, mão suando, coração batendo forte, aquela vontade de chorar engasgada na garganta…

Como vou sobreviver a essas festas sem o meu bebê nos braços? Ou sem a minha barriga que deveria estar aqui, crescendo dia a dia e eu exibindo ela com sorrisão no rosto em todas as fotos de família?

Foi exatamente isso que eu vivi há dois anos, quando passei meu primeiro Natal e Réveillon sem minha filha. Ela morreu em setembro, quando deveria ter nascido em novembro. E nos meus planos o Natal seria o mais lindo de todos com a minha pequena nos braços!

Quando comecei a ver os primeiros sinais do Natal, minha primeira reação foi fugir. Desligava a TV, não entrava nas lojas, evitava os shoppings. Mas eu amo o Natal e não queria que ele se transformasse num trauma para mim. Então, pensei numa forma de deixa-lo um pouco mais suave nesse primeiro ano.

Eu nunca fui uma pessoa muito boa com trabalhos manuais, mas entrei na internet e procurei um anjinho em feltro que eu conseguisse fazer sozinha. Era fácil, precisava de pouca habilidade, saí para comprar os materiais e horas depois ele estava pronto! Meu anjinho cor de rosa, para enfeitar a árvore que eu não queria montar.

Até hoje meu anjinho permanece na árvore. Simboliza a presença da minha filha no meu Natal, que não teria graça sem ela. Naquele ano, não participei da ceia com a minha família e eles entenderam. Fiquei em casa com meu marido e minha mãe. Jantamos, oramos e fomos dormir com saudade da nossa pequena.

Mesmo dolorido, acho que colocar a minha filha no meu Natal, mesmo que simbolicamente, me ajudou e ajuda bastante. Então eu quero convidar vocês, que gostam das festas de final de ano, a fazerem o mesmo.

Pode ser um enfeite na árvore, uma pelúcia especial na casa ou na foto de família para o cartão de Natal, uma bola de cor diferente das demais, um trabalho manual seu com o nome do seu bebê, uma doação em nome do seu bebê para uma organização de caridade. Algo simbólico, algo especial, entre vocês e com muito amor!


Desejo que as festas de final de ano, e tudo o que elas envolvem, não machuquem tanto vocês… Saudade vamos sentir eternamente, isso é fato, mas somos fortes o bastante e podemos sobreviver. Por amor!

Autora: Karina Meneghetti

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Depoimento de Rita Bertozzi




Foi tudo muito planejado: Compramos nossa casa, organizamos nossa vida financeira e nos sentimos preparados para dar o maior passo de nossas vidas: TER UM FILHO!

Foi tudo muito rápido.... Na nossa primeira tentativa engravidamos! Foi uma mistura de medo, insegurança, amor e alegria! Quando recebemos o positivo foi uma alegria sem fim! Um dos momentos mais mágicos do nosso relacionamento: 10.12.2016.

A partir de então tudo foi festa! Nossa família e amigos receberam a notícia com muita alegria! Estávamos naquele momento realizando também o sonho de alguns deles. 

Infelizmente a vida nos prega peças e com a mesma rapidez que engravidamos perdemos nosso filho, nosso sonho realizado! 

Foi na primeira ultrassom que percebemos algo errado... Não existia nem ao menos o saco gestacional! Mas estava muito no início da gestação, então resolvemos aguardar mais um pouco para repetir a próxima e enquanto isso o Beta HCG era feito a cada 2 dias para verificar sua evolução! A boa notícia é que ele evoluia, mas ao mesmo tempo ele evoluia lentamente o que não era bom...
Foram quatro semanas repetindo o beta, repetindo ultrassons, chorando, pedindo para Deus que nosso filho estivesse bem! Quatro semanas de angústia! 

Perdi as contas de quantos Betas, quantas ultrassons e eu naquele momento só queria poder ouvir seu coração e saber se estava tudo bem.

Passamos o reveillon em casa! Eu tentava segurar as lágrimas, mas elas escorriam pelo meu rosto sem eu poder controlar! Eu já estava com um pequeno sangramento, mas ainda não tinhamos a confirmação do aborto, no fundo ainda existia uma esperança de ouvir que tudo o que vivemos não passou de um susto e que nosso filho estava bem! 

Dia 10.01.2016 - Exatamente um mês após o nosso positivo recebemos a confirmação de que nossa gestação não tinha evoluído: Beta diminuindo, ultrassom sem nenhum vestígio do feto!

Doeu muito... Ainda dói! É muito doloroso ver o maior sonho da sua vida escorrer pelas suas mãos e não poder fazer nada! Você simplesmente não pode controlar... 

Ele viveu em mim pouco tempo, mas foi o suficiente para me transformar! A dor se transformou em força, as lágrimas se transformaram em fé, a angústia deu lugar a paz! Ele me fez evoluir muito! Me fez crescer como pessoa! Me fez uma pessoa melhor! 

Foi essencial a presença das pessoas que amo ao meu lado! Meu marido foi exemplo de fé e me carregou nos braços quando não tinha mais forças para caminhar! Minha família foi exemplo de amor e naquele momento me senti abraçada por todos eles! 

Eu lembro do meu filho todos os dias! Peço a Deus para que ele esteja em um bom lugar, pois não tenho dúvida que ele esteve aqui por pouco tempo, mas cumpriu sua jornada com louvor: ele transformou nossas vidas! 
Por isso não quero nunca que ele seja esquecido, não quero ouvir que foi melhor ele partir no começo, afinal eu já era a mãe dele a partir do momento que peguei aquele positivo! 

Ele será sempre nosso anjo! 

Hoje recebemos um presente de Deus: Estamos grávidos novamente! 24 semanas e um garotão cheio de saúde! Mas isso não irá apagar tudo o que vivemos juntos! Nosso anjo sem dúvida continua nos iluminando nessa nova fase de nossas vidas! 

A mensagem que gostaria de deixar é: Não deixe de continuar tentando, mas não deixe uma parte de sua vida pra trás! Não deixe de falar sobre sua perda, isso te ajudará a continuar! 

Um abraço a todas as mamães que assim como eu sofreram essa perda tão precoce e dolorosa. 

Eu não quero tentar novamente! Eu queria aquele bebê...





Eu sofri um aborto precoce. Quatro deles, na verdade. Chega a ser curioso porque não precisei passar por toda a gravidez apenas para sofrer uma perda no final. Mas há uma dificuldade muito real em ter uma perda precoce, que às vezes não é reconhecida. Eu tenho uma compreensão muito profunda do que minha perda NÃO é. . . mas também tenho uma compreensão muito profunda do que É..


Aqui está o que o aborto espontâneo significou para mim.






Eu estava na maioria das vezes sozinha.


Eu "entrei em trabalho de parto" sozinha, sem uma doula, sem uma enfermeira certificando-me de que eu estava segura, muitas vezes sem a presença do meu marido porque ele tinha que ir para o trabalho. Monitorando cuidadosamente minha própria perda de sangue, cuidei de meus filhos mais velhos enquanto meu útero se esvaziava do irmão que eu esperava lhes dar. À medida que minhas perdas aumentaram ao longo dos anos (cinco em cinco anos, para ser exata), amigos e familiares me apoiaram com cartões, flores, refeições e, ocasionalmente, cuidando das crianças nos dias mais difíceis do sangramento. Com isso, considero-me uma das poucas sortudas. Conheço muitas outras que estavam mais sozinhas - e solitárias - durante suas perdas, e isso machuca meu coração.


Eu tive poucos recursos.


Além de verificar meus hormônios da gravidez, para garantir que eles voltariam ao normal e, uma ou duas vezes, oferecer-me medicamentos contra a dor, não havia muito que meus médicos pudessem fazer por mim. Eu falava principalmente com as enfermeiras por telefone. As instruções delas para mim eram simples: "Sinto muito, mas seu hCG diminuiu e você vai abortar. Precisamos continuar a monitorá-la para garantir que o hormônio diminua até 0. Por favor, conte pra gente se você encharcar mais de um absorvente por hora". E foi isso.


Confiei fortemente no Google, em blogs e experiências de amigas para me preparar mentalmente para o processo físico que aconteceria. Enquanto eu explorava a biblioteca e uma livraria a procura de livros sobre o assunto, encontrei relativamente poucos e nenhum deles me ajudou a entender o processo muito real que meu corpo estava prestes a passar. Uma visita ao pronto-socorro confirmou o que eu ouço de muitas mães que sofreram abortos: as equipes dos prontos-socorros não estão preparadas para lidar com as complicações emocionais e físicas do aborto espontâneo. Na minha opinião, não acho que os consultórios dos obstetras estejam preparados para perdas iniciais também.


O processo foi mais difícil, assustador e emocional do que eu poderia imaginar.


Tudo demorou muito mais do que eu esperava, algumas vezes levaram semanas. Os remédios de dor que eu tinha em casa e a bolsa de água quente eram pouco eficazes para diminuir as cólicas das contrações que invadiram meu corpo. A quantidade de sangue sempre me chocou. Com as minhas perdas entre 5-8 semanas de gravidez, não esperava mais do que um período pesado. Mas essa nunca foi minha experiência.


Nunca esquecerei o dia em que tentei parecer "normal" e fui a uma apresentação comercial fora da cidade. Uma vez que a enfermeira disse que meu hCG estava diminuindo e que eu teria um aborto, era um jogo de espera para ver quando meu corpo se manifestaria. Eu nunca sabia ao certo quando o sangramento começaria, ou ficaria intenso, e naquele dia aconteceu. Meu marido parou em um posto de gasolina enquanto meu útero rejeitava aquela gravidez que eu queria tão desesperadamente. O chão sob meus pés parecia de uma cena de crime e eu sabia que precisaria de ajuda para limpá-lo adequadamente. As lágrimas caíram enquanto em dava a descarga. O fim de uma vida merecia mais honra do que eu poderia oferecer naquele momento. Eu desejava ter enterrado devidamente o meu filho.


Senti a expectativa da sociedade para superar rapidamente.


Nossa sociedade não é boa em reconhecer a perda quando associada a qualquer perda recente (e, na maioria das vezes, não é boa em respeitar as perdas posteriores também). Ainda temos muito o que melhorar. Enquanto algumas pessoas entenderam que minha vida havia mudado desde o momento em que sabia que estava grávida, eu sentia que as pessoas esperavam que eu continuasse com a vida normal depois de ter abortado. Como não tive uma barriga para provar que eu estava grávida, porque não tive meses de gravidez nos quais as outras pessoas pudessem ver minha gravidez avançar, então eu deveria poder superar isso, seguir em frente e voltar à vida normal.
Senti que eu deveria ficar em silêncio.


Mesmo agora, estou consciente enquanto escrevo sobre minhas experiências. Eu me preocupo que você pense que estou me alongando no assunto, ou preso nele, ou talvez pior, sendo a rainha do drama. Eu sei que não deveria ter que me censurar - afinal de contas, estamos no século XXI, as mulheres marcham com seus gorros de gatinho, por isso, para chorar alto eu deveria dizer: "Eu abortei. Isso machuca. Eu estou sofrendo... " e o mundo ainda assim seguiria em frente. E ainda me sinto estranha toda vez que escrevo ou falo sobre meus abortos. Se eu fosse honesta com você, eu diria que eu me sinto envergonhada de quanto chorei as minhas perdas.


Muitos acreditam que "cedo" significa "não tão significativo", e eu lutei profundamente acreditando que meu amor e meu sofrimento estavam fora de lugar.


Eu fazia parte do clube das mães que perderam um bebê, mas sentia-me inapropriada. Eu não queria o que muitos consideram uma “perda mais difícil” para pertencer, mas, mesmo assim, eu me senti como uma intrusa no mundo das mães enlutadas. Eu ainda sou uma mãe enlutada se eu não vi meu bebê, mesmo em ultrassom? E se eu escolhi não nomear meu filho? E se tudo o que eu tinha para provar que meu filho existiu era um teste de gravidez positivo?


Na verdade, eu estava procurando por validação para o meu aborto precoce em todas as formas erradas. Eu não precisava de outros (nem mesmo do clube de perda de bebê) para me dizer que meu bebê era importante, desejado ou amado. Eu sabia tudo isso. O que eu só precisava ouvir - o que eu precisava dizer a mim mesma - era que estava certo e era necessário sofrer a perda do meu bebê, mesmo que ele fosse pequeno e precoce.


Eu aguentei três perdas antes que a comunidade médica me permitisse o direito de buscar respostas.


Os médicos não queriam fazer exames antes que eu chegasse a três abortos. Eu me perguntava quando minhas perdas, esses bebês que eu tentei imaginar por tanto tempo, começariam a “contar”. “Às vezes, essas coisas simplesmente acontecem” não parecia reconfortante quando o aborto precoce continuou acontecendo. Dizer adeus a três bebês apenas para encontrar uma resposta parecia um preço muito alto para pagar para entender minha fertilidade e aumentar minha família.


Eu não queria tentar novamente. Eu queria aquele bebê.


Uma das partes mais difíceis sobre a perda precoce da gravidez é essa noção de que as gravidezes são fáceis de alcançar e fáceis de substituir. Se você tiver uma perda precoce, bem, sem incômodo - tente novamente no próximo mês. Exceto que, com cada teste de gravidez positivo, eu descobri no fundo do meu coração que eu queria esse bebê. Eu queria que esse ficasse. Para descobrir se era um menino ou uma menina. Para assistir a sua pequena personalidade se desenrolar. Eu queria aconchega-lo, eu queria beijar suas bochechas gordinhas, queria decidir se suas fotos de bebê pareciam mais com as minhas ou com meu marido. E depois de tentar por meses (ou anos) para conseguir essa gravidez, não queria começar o processo de tentar conceber tudo de novo. Não, não era outra gravidez que eu queria. Eu queria ESSE bebê.


Queria tão desesperadamente conhecer meu bebê, se era um menino ou uma menina. Para ver suas pequenas mãos e pés ou o bater o coração.


Mas um aborto precoce levou isso de mim. E continuou a tirar isso de mim. Tristeza e tristeza me dominaram, mas não consegui dizer exatamente por quem era. Sim, meu bebê. Mas quem era meu bebê? O fato de eu não poder responder com certeza me partia o coração.


Então, sim, eu tive um aborto precoce.


Doeu como o inferno. Eu lutei, chorei, fiquei triste. Eu avancei. Mas nunca vou parar de me perguntar quem foram esses bebês.


Autora: Rachel Lewis
Publicado originalmente em inglês na Still Standing Magazine (http://stillstandingmag.com/2017/10/dont-want-try-wanted-baby/)

domingo, 29 de outubro de 2017




Eu não tenho um bebê arco-íris. Não quero que tenham dó de mim, mas um pouco de respeito pela minha dor não seria nada mal.

Há dois anos, quando minha filha morreu durante o parto, eu não imaginava que estava se iniciando um dos momentos de maior dor e autodescobrimento da minha vida. Foram meses e meses de muito choro, muita raiva do mundo, dor, saudade do que não vivemos juntas. Passei do momento de maior alegria, que foi a minha gestação, para um momento de xeque-mate existencial: 

Quem sou eu agora? O que quero pra minha vida? Eu ainda amo a minha vida? Quero viver? O que me dá alegria após a morte da minha filha? Por que e pra quê viver?

Foi um processo dolorido. Olhar pra mim e me redescobrir. Reencontrar as pequenas alegrias. Viajar com meu marido e conhecer novos lugares. Poder me sentir amada e amar. Olhar pro mundo e achar que ele ainda era bonito e valia a pena. Assistir TV com a minha mãe e gargalhar vendo o Silvio Santos. Brincar com os filhos das minhas primas e me sentir querida. Estudar, aprender coisas novas. Deixar um trabalho que me explorava emocionalmente. Conhecer novas pessoas. Sentir que posso ajudar as pessoas, acolhendo e falando sobre a minha filha.

Durante todo esse processo, a vontade de ter um segundo filho ou filha estava comigo. Pra ser bem sincera, essa vontade nunca deixou meu coração. Minha filha morreu e, se pudesse, eu estaria grávida já no dia seguinte. Mas respeitei as orientações médicas e comecei a tentar após seis meses. A cada tentativa e a cada menstruação eu sofria. A ansiedade foi crescendo. Outras mães que eu conhecia engravidavam. Tinham seus bebês arco-íris. E eu torcia por elas, vibrava com elas, acompanhava seus medos. E o meu filho ou filha não chegava… e eu doía… e eu rezava e parecia que Deus mais uma vez não me ouvia…

Descobri questões de fertilidade que dificultavam a gravidez. Aceitei todos os tratamentos. E meu bebê arco-íris ainda não veio… E eu ainda quero que ele venha. 

Mas hoje já olho pra ele como um novo filho, não mais como uma tábua de salvação. Ele não vai vir pra ocupar o lugar da irmã ou pra preencher um vazio. Nem pra me dar esperança. Nem pra me ajudar a superar. Espero, sim, que ele venha, pra completar a nossa família. Pra me ensinar o outro lado da maternidade. Pra que a gente possa ter uma vida juntos.

A minha alegria, a minha esperança, a vontade de viver… tudo isso eu recuperei no meu processo de luto e autodescobrimento. Na verdade, ainda recupero dia após dia. Hoje eu tenho vontade de viver, independente de uma nova gravidez. Eu sei que minha vida vale a pena! Que o mundo é bonito e que eu quero estar nele e ser uma pessoa melhor. E este é o meu arco-íris!

Depoimento de Juliana Couto



Na voz da mãe, Juliana.

Seu corpo será controlado à primeira ideia de maternidade. Se você engravidar e abortar espontaneamente, seu filho será considerado pouco. A curetagem é simples, o aborto natural também, a mulher se recupera e logo outro filho vem porque não era a hora. Mas se a mulher quiser abortar porque não quer ser mãe, quaisquer que sejam as razões que a movem, ela é uma assassina de bebês. Se a mulher optar por um parto domiciliar, ela será condenada como a natureba que coloca em risco não só a vida dela, mas a do bebê. Mas se ela optar por uma cesárea agendada, será aplaudida, ainda que os embasamentos científicos apontem cada vez mais o risco da desnecesárea. Se essa mulher abortar espontaneamente, impedindo qualquer concretização de parto domiciliar, e optar por abortar naturalmente em sua casa, ela não será condenada. Aliás, ninguém se manifestará para recolher aqueles riscos, agora desfeitos em aborto, no chão.

Abortar dói. Física e espiritualmente. É preciso escrever e reescrever a sensação de perder o chão sob os pés e seguir andando, a sensação de dor que vem das entranhas e segue acompanhando um corpo que já não gesta como antes. Dói repassar os pontos, perceber os sinais antes não percebidos, compreender que é preciso que o corpo saia de você. Abortar dói. O útero dilata pouco, mas dilata, e rapidamente. Diferentemente da contração do parto, que irradia das costas em volta do corpo, a dilatação do aborto faz doer o útero, as costas, a alma, separadamente. Foram meses até que as palavras sensoriais de abortar se encontrassem: imagine-se em um queda d’água com um filete de água forte e sem forma, correndo a esmo. Imagine-se desesperadamente tentando pegar esse filete e torná-lo uma pequena poça em suas mãos, um poça pequena e constante. Imagine essa poça como a única possibilidade de vida. A água não é controlável. Nem a vida, nem o aborto. Abortar um filho é a sensação constante da água esvaindo pelas mãos. Ainda que conscientemente se saiba que a água não pode ser controlada, pegada, guardada, o inconsciente não se exime em tentar, tão forte, rígido e competente quanto a água. Essa é a sensação desesperadora de perder um filho. Diferentemente do parto, quando em grandes passagens espirituais nascem um bebê, uma placenta e uma mãe, no aborto nasce uma mãe, com uma ruptura na alma avassaladora. O útero dá conta de desfazer as camadas do endométrio (que um dia formariam a placenta) que se desprende em pedaços e sai em pedaços, grandes placas de sangue. O sangue é constante. Ele jorra, ele sai, não para, não há intermitência, pausa ou descanso. Há descaso. Em algum momento entre as placas de sangue, é possível perceber a saída de uma pequena bolsa, transparente, pequena, com um pequeno formato no interior. Já sem vida, sem batimentos, apenas a ideia do que seria o segundo filho. Dói.

Dói o desligamento, dói a quebra, dói a interrupção, dói compreender e aceitar ao mesmo tempo em que o querer o filho prevalece - das complexidades da maternidade. Dói a invisibilidade da família. No caso, essa família, tão bem encaixada em tantos padrões e ideias, com a consciência desses padrões e desse querer sem família. Uma mãe, um pai, dois filhos - quatro, mas um deles invisível. Dói a ideia de que todos ao redor veem seu filho como peça substituível : logo vem outro, não era para ser, não se sabem os desígnios da vida, é aprendizado (esse é especialmente cruel; afinal, quem em sã consciência fala para uma mãe que perdeu um filho que abortar placas de sangue e ver seu filho morto saindo da vagina é um aprendizado, em pleno luto?). Dói lembrar dos comentários anteriores: aquela prima que avisou “só conta para todos depois das 12 semanas”, aquela tia que disse “juízo”.

Não basta você se encaixar em todos os padrões necessários (cabe aqui, esclarecer que é compreendendo o que são padrões sociais, estereótipos e entendendo o que nos leva a ser assim), não basta você optar pela monogamia, se estabelecer em um relacionamento heterossexual, não basta você ter um filho dentro de um casamento, não basta os responsáveis por essa família, a mãe e o pai, trabalharem, se encaixando em padrões nojentos do mercado de trabalho e com essa consciência trabalhando dentro deles, coagindo-se sem coagir, não basta optar pelas boas novas da educação infantil, não bastam os anos de estudo e dedicação acadêmica, as noites profissionais em claro, não basta o que a vida já deixou de marcas profundas em ambos, não basta o medo de reencontrar os fantasmas, não basta. Alguém dirá “juízo” ao seu segundo filho, eu seu ventre, que bravamente lutou (e só você sabe) pelas batidas compassadas e fortes de um minúsculo coração. Nada basta. Você vai abortar, vai doer, você vai repassar a história das mulheres de onde veio, da família de onde veio e o “juízo” vai ressoar, o não esperar as 12 semanas vai ressoar.

Ser abençoada com ciclos menstruais pós-aborto curtos, indolores e rápidos é gritar os quatro cantos do universo uterino: obrigada por me poupar. O que não impede que a dor volte, que a lembrança retorne e que de tempos em tempos, o filete de sangue menstrual recorde a tarde em que se perdeu um filho. A dor, as poças de sangue, o buraco na alma já tão escancarado e fundo que é vazio, o vazio da perda. A necessidade de estar ali para o mais velho, aquele que será sempre o mais velho, que ensinou a você tudo. E o mais novo, que invisível, ensinou o outro tudo que você não previra. Dói perceber que o segundo filho não é comemorado pelos familiares e amigos como o primeiro, que ele parece ser menos. Que falam “de novo, grávida?” e que poucas pessoas realmente parabenizaram, torceram, felicitaram.

Dói saber que você dedicou semanas de amor infinito para alguém que precisava partir. Será que esse corpo, ainda sem alma, apenas concepção, ainda a esperar pelo espírito que o habitaria, compreendia meu amor?

Sim, compreendia. Eu o via, tão inteiro quanto o irmão.

Vai filho, eu estarei aqui, ambos invisíveis.