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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Eu não quero tentar novamente! Eu queria aquele bebê...





Eu sofri um aborto precoce. Quatro deles, na verdade. Chega a ser curioso porque não precisei passar por toda a gravidez apenas para sofrer uma perda no final. Mas há uma dificuldade muito real em ter uma perda precoce, que às vezes não é reconhecida. Eu tenho uma compreensão muito profunda do que minha perda NÃO é. . . mas também tenho uma compreensão muito profunda do que É..


Aqui está o que o aborto espontâneo significou para mim.






Eu estava na maioria das vezes sozinha.


Eu "entrei em trabalho de parto" sozinha, sem uma doula, sem uma enfermeira certificando-me de que eu estava segura, muitas vezes sem a presença do meu marido porque ele tinha que ir para o trabalho. Monitorando cuidadosamente minha própria perda de sangue, cuidei de meus filhos mais velhos enquanto meu útero se esvaziava do irmão que eu esperava lhes dar. À medida que minhas perdas aumentaram ao longo dos anos (cinco em cinco anos, para ser exata), amigos e familiares me apoiaram com cartões, flores, refeições e, ocasionalmente, cuidando das crianças nos dias mais difíceis do sangramento. Com isso, considero-me uma das poucas sortudas. Conheço muitas outras que estavam mais sozinhas - e solitárias - durante suas perdas, e isso machuca meu coração.


Eu tive poucos recursos.


Além de verificar meus hormônios da gravidez, para garantir que eles voltariam ao normal e, uma ou duas vezes, oferecer-me medicamentos contra a dor, não havia muito que meus médicos pudessem fazer por mim. Eu falava principalmente com as enfermeiras por telefone. As instruções delas para mim eram simples: "Sinto muito, mas seu hCG diminuiu e você vai abortar. Precisamos continuar a monitorá-la para garantir que o hormônio diminua até 0. Por favor, conte pra gente se você encharcar mais de um absorvente por hora". E foi isso.


Confiei fortemente no Google, em blogs e experiências de amigas para me preparar mentalmente para o processo físico que aconteceria. Enquanto eu explorava a biblioteca e uma livraria a procura de livros sobre o assunto, encontrei relativamente poucos e nenhum deles me ajudou a entender o processo muito real que meu corpo estava prestes a passar. Uma visita ao pronto-socorro confirmou o que eu ouço de muitas mães que sofreram abortos: as equipes dos prontos-socorros não estão preparadas para lidar com as complicações emocionais e físicas do aborto espontâneo. Na minha opinião, não acho que os consultórios dos obstetras estejam preparados para perdas iniciais também.


O processo foi mais difícil, assustador e emocional do que eu poderia imaginar.


Tudo demorou muito mais do que eu esperava, algumas vezes levaram semanas. Os remédios de dor que eu tinha em casa e a bolsa de água quente eram pouco eficazes para diminuir as cólicas das contrações que invadiram meu corpo. A quantidade de sangue sempre me chocou. Com as minhas perdas entre 5-8 semanas de gravidez, não esperava mais do que um período pesado. Mas essa nunca foi minha experiência.


Nunca esquecerei o dia em que tentei parecer "normal" e fui a uma apresentação comercial fora da cidade. Uma vez que a enfermeira disse que meu hCG estava diminuindo e que eu teria um aborto, era um jogo de espera para ver quando meu corpo se manifestaria. Eu nunca sabia ao certo quando o sangramento começaria, ou ficaria intenso, e naquele dia aconteceu. Meu marido parou em um posto de gasolina enquanto meu útero rejeitava aquela gravidez que eu queria tão desesperadamente. O chão sob meus pés parecia de uma cena de crime e eu sabia que precisaria de ajuda para limpá-lo adequadamente. As lágrimas caíram enquanto em dava a descarga. O fim de uma vida merecia mais honra do que eu poderia oferecer naquele momento. Eu desejava ter enterrado devidamente o meu filho.


Senti a expectativa da sociedade para superar rapidamente.


Nossa sociedade não é boa em reconhecer a perda quando associada a qualquer perda recente (e, na maioria das vezes, não é boa em respeitar as perdas posteriores também). Ainda temos muito o que melhorar. Enquanto algumas pessoas entenderam que minha vida havia mudado desde o momento em que sabia que estava grávida, eu sentia que as pessoas esperavam que eu continuasse com a vida normal depois de ter abortado. Como não tive uma barriga para provar que eu estava grávida, porque não tive meses de gravidez nos quais as outras pessoas pudessem ver minha gravidez avançar, então eu deveria poder superar isso, seguir em frente e voltar à vida normal.
Senti que eu deveria ficar em silêncio.


Mesmo agora, estou consciente enquanto escrevo sobre minhas experiências. Eu me preocupo que você pense que estou me alongando no assunto, ou preso nele, ou talvez pior, sendo a rainha do drama. Eu sei que não deveria ter que me censurar - afinal de contas, estamos no século XXI, as mulheres marcham com seus gorros de gatinho, por isso, para chorar alto eu deveria dizer: "Eu abortei. Isso machuca. Eu estou sofrendo... " e o mundo ainda assim seguiria em frente. E ainda me sinto estranha toda vez que escrevo ou falo sobre meus abortos. Se eu fosse honesta com você, eu diria que eu me sinto envergonhada de quanto chorei as minhas perdas.


Muitos acreditam que "cedo" significa "não tão significativo", e eu lutei profundamente acreditando que meu amor e meu sofrimento estavam fora de lugar.


Eu fazia parte do clube das mães que perderam um bebê, mas sentia-me inapropriada. Eu não queria o que muitos consideram uma “perda mais difícil” para pertencer, mas, mesmo assim, eu me senti como uma intrusa no mundo das mães enlutadas. Eu ainda sou uma mãe enlutada se eu não vi meu bebê, mesmo em ultrassom? E se eu escolhi não nomear meu filho? E se tudo o que eu tinha para provar que meu filho existiu era um teste de gravidez positivo?


Na verdade, eu estava procurando por validação para o meu aborto precoce em todas as formas erradas. Eu não precisava de outros (nem mesmo do clube de perda de bebê) para me dizer que meu bebê era importante, desejado ou amado. Eu sabia tudo isso. O que eu só precisava ouvir - o que eu precisava dizer a mim mesma - era que estava certo e era necessário sofrer a perda do meu bebê, mesmo que ele fosse pequeno e precoce.


Eu aguentei três perdas antes que a comunidade médica me permitisse o direito de buscar respostas.


Os médicos não queriam fazer exames antes que eu chegasse a três abortos. Eu me perguntava quando minhas perdas, esses bebês que eu tentei imaginar por tanto tempo, começariam a “contar”. “Às vezes, essas coisas simplesmente acontecem” não parecia reconfortante quando o aborto precoce continuou acontecendo. Dizer adeus a três bebês apenas para encontrar uma resposta parecia um preço muito alto para pagar para entender minha fertilidade e aumentar minha família.


Eu não queria tentar novamente. Eu queria aquele bebê.


Uma das partes mais difíceis sobre a perda precoce da gravidez é essa noção de que as gravidezes são fáceis de alcançar e fáceis de substituir. Se você tiver uma perda precoce, bem, sem incômodo - tente novamente no próximo mês. Exceto que, com cada teste de gravidez positivo, eu descobri no fundo do meu coração que eu queria esse bebê. Eu queria que esse ficasse. Para descobrir se era um menino ou uma menina. Para assistir a sua pequena personalidade se desenrolar. Eu queria aconchega-lo, eu queria beijar suas bochechas gordinhas, queria decidir se suas fotos de bebê pareciam mais com as minhas ou com meu marido. E depois de tentar por meses (ou anos) para conseguir essa gravidez, não queria começar o processo de tentar conceber tudo de novo. Não, não era outra gravidez que eu queria. Eu queria ESSE bebê.


Queria tão desesperadamente conhecer meu bebê, se era um menino ou uma menina. Para ver suas pequenas mãos e pés ou o bater o coração.


Mas um aborto precoce levou isso de mim. E continuou a tirar isso de mim. Tristeza e tristeza me dominaram, mas não consegui dizer exatamente por quem era. Sim, meu bebê. Mas quem era meu bebê? O fato de eu não poder responder com certeza me partia o coração.


Então, sim, eu tive um aborto precoce.


Doeu como o inferno. Eu lutei, chorei, fiquei triste. Eu avancei. Mas nunca vou parar de me perguntar quem foram esses bebês.


Autora: Rachel Lewis
Publicado originalmente em inglês na Still Standing Magazine (http://stillstandingmag.com/2017/10/dont-want-try-wanted-baby/)

domingo, 29 de outubro de 2017




Eu não tenho um bebê arco-íris. Não quero que tenham dó de mim, mas um pouco de respeito pela minha dor não seria nada mal.

Há dois anos, quando minha filha morreu durante o parto, eu não imaginava que estava se iniciando um dos momentos de maior dor e autodescobrimento da minha vida. Foram meses e meses de muito choro, muita raiva do mundo, dor, saudade do que não vivemos juntas. Passei do momento de maior alegria, que foi a minha gestação, para um momento de xeque-mate existencial: 

Quem sou eu agora? O que quero pra minha vida? Eu ainda amo a minha vida? Quero viver? O que me dá alegria após a morte da minha filha? Por que e pra quê viver?

Foi um processo dolorido. Olhar pra mim e me redescobrir. Reencontrar as pequenas alegrias. Viajar com meu marido e conhecer novos lugares. Poder me sentir amada e amar. Olhar pro mundo e achar que ele ainda era bonito e valia a pena. Assistir TV com a minha mãe e gargalhar vendo o Silvio Santos. Brincar com os filhos das minhas primas e me sentir querida. Estudar, aprender coisas novas. Deixar um trabalho que me explorava emocionalmente. Conhecer novas pessoas. Sentir que posso ajudar as pessoas, acolhendo e falando sobre a minha filha.

Durante todo esse processo, a vontade de ter um segundo filho ou filha estava comigo. Pra ser bem sincera, essa vontade nunca deixou meu coração. Minha filha morreu e, se pudesse, eu estaria grávida já no dia seguinte. Mas respeitei as orientações médicas e comecei a tentar após seis meses. A cada tentativa e a cada menstruação eu sofria. A ansiedade foi crescendo. Outras mães que eu conhecia engravidavam. Tinham seus bebês arco-íris. E eu torcia por elas, vibrava com elas, acompanhava seus medos. E o meu filho ou filha não chegava… e eu doía… e eu rezava e parecia que Deus mais uma vez não me ouvia…

Descobri questões de fertilidade que dificultavam a gravidez. Aceitei todos os tratamentos. E meu bebê arco-íris ainda não veio… E eu ainda quero que ele venha. 

Mas hoje já olho pra ele como um novo filho, não mais como uma tábua de salvação. Ele não vai vir pra ocupar o lugar da irmã ou pra preencher um vazio. Nem pra me dar esperança. Nem pra me ajudar a superar. Espero, sim, que ele venha, pra completar a nossa família. Pra me ensinar o outro lado da maternidade. Pra que a gente possa ter uma vida juntos.

A minha alegria, a minha esperança, a vontade de viver… tudo isso eu recuperei no meu processo de luto e autodescobrimento. Na verdade, ainda recupero dia após dia. Hoje eu tenho vontade de viver, independente de uma nova gravidez. Eu sei que minha vida vale a pena! Que o mundo é bonito e que eu quero estar nele e ser uma pessoa melhor. E este é o meu arco-íris!

Depoimento de Juliana Couto



Na voz da mãe, Juliana.

Seu corpo será controlado à primeira ideia de maternidade. Se você engravidar e abortar espontaneamente, seu filho será considerado pouco. A curetagem é simples, o aborto natural também, a mulher se recupera e logo outro filho vem porque não era a hora. Mas se a mulher quiser abortar porque não quer ser mãe, quaisquer que sejam as razões que a movem, ela é uma assassina de bebês. Se a mulher optar por um parto domiciliar, ela será condenada como a natureba que coloca em risco não só a vida dela, mas a do bebê. Mas se ela optar por uma cesárea agendada, será aplaudida, ainda que os embasamentos científicos apontem cada vez mais o risco da desnecesárea. Se essa mulher abortar espontaneamente, impedindo qualquer concretização de parto domiciliar, e optar por abortar naturalmente em sua casa, ela não será condenada. Aliás, ninguém se manifestará para recolher aqueles riscos, agora desfeitos em aborto, no chão.

Abortar dói. Física e espiritualmente. É preciso escrever e reescrever a sensação de perder o chão sob os pés e seguir andando, a sensação de dor que vem das entranhas e segue acompanhando um corpo que já não gesta como antes. Dói repassar os pontos, perceber os sinais antes não percebidos, compreender que é preciso que o corpo saia de você. Abortar dói. O útero dilata pouco, mas dilata, e rapidamente. Diferentemente da contração do parto, que irradia das costas em volta do corpo, a dilatação do aborto faz doer o útero, as costas, a alma, separadamente. Foram meses até que as palavras sensoriais de abortar se encontrassem: imagine-se em um queda d’água com um filete de água forte e sem forma, correndo a esmo. Imagine-se desesperadamente tentando pegar esse filete e torná-lo uma pequena poça em suas mãos, um poça pequena e constante. Imagine essa poça como a única possibilidade de vida. A água não é controlável. Nem a vida, nem o aborto. Abortar um filho é a sensação constante da água esvaindo pelas mãos. Ainda que conscientemente se saiba que a água não pode ser controlada, pegada, guardada, o inconsciente não se exime em tentar, tão forte, rígido e competente quanto a água. Essa é a sensação desesperadora de perder um filho. Diferentemente do parto, quando em grandes passagens espirituais nascem um bebê, uma placenta e uma mãe, no aborto nasce uma mãe, com uma ruptura na alma avassaladora. O útero dá conta de desfazer as camadas do endométrio (que um dia formariam a placenta) que se desprende em pedaços e sai em pedaços, grandes placas de sangue. O sangue é constante. Ele jorra, ele sai, não para, não há intermitência, pausa ou descanso. Há descaso. Em algum momento entre as placas de sangue, é possível perceber a saída de uma pequena bolsa, transparente, pequena, com um pequeno formato no interior. Já sem vida, sem batimentos, apenas a ideia do que seria o segundo filho. Dói.

Dói o desligamento, dói a quebra, dói a interrupção, dói compreender e aceitar ao mesmo tempo em que o querer o filho prevalece - das complexidades da maternidade. Dói a invisibilidade da família. No caso, essa família, tão bem encaixada em tantos padrões e ideias, com a consciência desses padrões e desse querer sem família. Uma mãe, um pai, dois filhos - quatro, mas um deles invisível. Dói a ideia de que todos ao redor veem seu filho como peça substituível : logo vem outro, não era para ser, não se sabem os desígnios da vida, é aprendizado (esse é especialmente cruel; afinal, quem em sã consciência fala para uma mãe que perdeu um filho que abortar placas de sangue e ver seu filho morto saindo da vagina é um aprendizado, em pleno luto?). Dói lembrar dos comentários anteriores: aquela prima que avisou “só conta para todos depois das 12 semanas”, aquela tia que disse “juízo”.

Não basta você se encaixar em todos os padrões necessários (cabe aqui, esclarecer que é compreendendo o que são padrões sociais, estereótipos e entendendo o que nos leva a ser assim), não basta você optar pela monogamia, se estabelecer em um relacionamento heterossexual, não basta você ter um filho dentro de um casamento, não basta os responsáveis por essa família, a mãe e o pai, trabalharem, se encaixando em padrões nojentos do mercado de trabalho e com essa consciência trabalhando dentro deles, coagindo-se sem coagir, não basta optar pelas boas novas da educação infantil, não bastam os anos de estudo e dedicação acadêmica, as noites profissionais em claro, não basta o que a vida já deixou de marcas profundas em ambos, não basta o medo de reencontrar os fantasmas, não basta. Alguém dirá “juízo” ao seu segundo filho, eu seu ventre, que bravamente lutou (e só você sabe) pelas batidas compassadas e fortes de um minúsculo coração. Nada basta. Você vai abortar, vai doer, você vai repassar a história das mulheres de onde veio, da família de onde veio e o “juízo” vai ressoar, o não esperar as 12 semanas vai ressoar.

Ser abençoada com ciclos menstruais pós-aborto curtos, indolores e rápidos é gritar os quatro cantos do universo uterino: obrigada por me poupar. O que não impede que a dor volte, que a lembrança retorne e que de tempos em tempos, o filete de sangue menstrual recorde a tarde em que se perdeu um filho. A dor, as poças de sangue, o buraco na alma já tão escancarado e fundo que é vazio, o vazio da perda. A necessidade de estar ali para o mais velho, aquele que será sempre o mais velho, que ensinou a você tudo. E o mais novo, que invisível, ensinou o outro tudo que você não previra. Dói perceber que o segundo filho não é comemorado pelos familiares e amigos como o primeiro, que ele parece ser menos. Que falam “de novo, grávida?” e que poucas pessoas realmente parabenizaram, torceram, felicitaram.

Dói saber que você dedicou semanas de amor infinito para alguém que precisava partir. Será que esse corpo, ainda sem alma, apenas concepção, ainda a esperar pelo espírito que o habitaria, compreendia meu amor?

Sim, compreendia. Eu o via, tão inteiro quanto o irmão.

Vai filho, eu estarei aqui, ambos invisíveis.

segunda-feira, 13 de março de 2017

"Quantos filhos você tem?" - A pergunta Inevitável


(desenho do Ruben, filho da Fernanda)

Uma pergunta simples, uma pergunta como qualquer outra, uma questão tão normal ... Mas para aqueles que perderam um bebê não é.
Você hesita, fica em silêncio, pensa em frações de segundos e, instintivamente responde: "dois", "três" se você tem filhos vivos, ou "não tenho" se o seu único filho tem asas de anjo e conseguir vê-lo, aparentemente, não é o assunto da conversa, mas por dentro você se martiriza, vem a culpa, você sente que traiu seu bebê, ou o rejeitou pois, você tem um filho no céu e o negou .
As primeiras vezes que isso me aconteceu, rapidamente disse que tinha dois filhos e logo mudei de assunto e, em seguida, me senti mal por ter ficado calada. Mas disse à mim mesma que eu tinha que contar todos eles, porque eles são meus filhos, e no fim, estava naquele silêncio constrangedor que faz todo interlocutor terminar se desculpando ou abruptamente mudar de assunto.
Mas como você pode responder a essa pergunta inevitável sem se tornar um martírio emocional e cansativo?
Eu tenho pensado muito sobre isso e meu filho mais velho tem me ajudado a refletir nessa questão. Um dia ele chegou irritado e triste da escola porque um colega de quarto o havia ridicularizado por seus irmãos falecidos, e nesse momento lhe disse para não ficar irritado porque seu colega não tinha passado por algo assim e, portanto, não entendia e enfatizei que meu filho não devia explicações para ninguém, somente para aqueles em quem sentisse confiança para falar a respeito.
Aqui está a resposta: Se a pessoa que lhe pergunta lhe inspira confiança em você contar o que houve, responda-lhe com a verdade.
Apenas uma semana atrás, eu tive que ir resolver algumas pendências na documentação do meu filho e chegando lá uma senhora me questionou quantos filhos eu tinha. Contei minha história, e ela me pediu desculpas e me deu a confiança para continuar a lhe contar tudo. Falei sobre todo meu caso e foi bem bacana falar sem desconfortos, silêncios ou incômodos.
Não precisamos nos sentir culpados ou achar que estamos traindo nossos anjinhos, mas nem todos merecem uma explicação. Devemos deixar-nos guiar pelos nossos instintos e saber a quem responder, mesmo um completo estranho pode nos trazer confiança e assim, nos sentirmos seguros e à vontade para falar a respeito. 

(texto de Fernanda Olguin para o blog Mirar el Cielo - Tradução livre por Grupo SobreViver)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pelo que vale a pena viver?






"Se não fosse pelo meu filho mais velho, eu acho que não conseguiria sobreviver." 
"Sem meus filhos vivos, eu acho que não teria encontrado nada pelo que valesse a pena viver ." 
"Se eu não tivesse tido o meu bebê arco-íris, eu não sei se eu conseguiria ter encontrado esperança outra vez." 
"Eu não sei se valeria a pena viver sem os meus filhos."


Eu ouvi estas afirmações inúmeras vezes nos últimos anos desde que minha filha morreu antes do nascimento. Eu ouvi isso de várias mães e pais que perderam seus filhos, ouvi de amigos, familiares, clientes e colegas de trabalho.

O pensamento básico atrás dessas afirmações? Sem um filho vivo a vida não vale a pena.

Esperança e sobrevivência após a morte de uma criança está fora de cogitação e é impossível. Sobreviver é o melhor que podemos fazer após a morte de um ou de todos os nossos filhos. Estas são as mais dolorosas, e possivelmente as mais perigosas, afirmações para mães que perderam seus filhos – mães sem nenhum filho ou filha vivos.

E cada uma dessas afirmações são pura besteira. Um completo absurdo.

Perder nossos filhos é devastador. Nós ficamos com braços doloridos, corações partidos, um sofrimento que não conseguimos explicar, uma perda inacreditável. Esta é uma perda que ficará conosco pelo resto de nossas vidas.

Colocar este tipo de afirmação como verdades absolutas dá a falsa e perigosa sensação às mães enlutadas de que não existe esperança para elas, nenhuma razão pela qual valha a pena viver após a perda de nossas crianças. As perdas que tivemos modificaram totalmente nossas vidas, mas mesmo ainda como “mães invisíveis” nossa esperança não morreu.

A vida não deixa de valer a pena ou se torna apenas sobrevivência quando nossos bebês morrem. Nós, como indivíduos, como humanos, como mães de bebês que se foram cedo demais, merecemos viver ainda. Nós, apenas nós como indivíduos. Nós somos razão suficiente para viver – para lutar pela vida, pela beleza, pela alegria, pela plenitude de viver novamente. Nossas crianças, vivas ou mortas, são lindas e maravilhosas fontes de propósito e inspiração e alegrias. E nós podemos ter propósito e inspiração e alegria mesmo sem elas aqui conosco.

Nós merecemos isso!
Nós merecemos esta esperança!
Nós merecemos esta vida plena e bonita – mesmo se nunca nos sentirmos completas novamente!
Nós valemos a pena!!

Vale a pena viver por nós mesmas. Mesmo sem nossos bebês. Mesmo que a vida na maioria das vezes não aconteça como nós planejamos. Mesmo que seja dolorosa e para sempre tenha um sabor agridoce.

Nós podemos ter esperança!
Nós não precisamos apenas sobreviver, mas aprender a florescer novamente.
Vale a pena viver por nós mesmas, porque nós somos simplesmente suficientes para e como nós mesmas.

Palavras são criaturas poderosas – se dita por outra pessoa ou por nós mesmas. Vamos usar este poder com sabedoria, com muito amor e carinho por todas nós.

Ao invés de dizer, "Se não fosse pelo meu filho mais velho, eu acho que não conseguiria sobreviver”, talvez diga, “Eu sou tão grata pelo filho que ainda tenho comigo”.
Ao invés de dizer, "Sem meus filhos vivos, eu acho que não teria encontrado nada pelo que valesse a pena viver ", tente “A vida é muito dura após a perda de uma criança e eu sou grata pelo filho que ainda tenho comigo”.
Ao invés de dizer, "Se eu não tivesse tido o meu bebê arco-íris, eu não sei se eu conseguiria ter encontrado esperança outra vez" diga “Sou grata pela chance de ser mãe de uma criança viva mesmo que eu sinta muita saudade do meu filho mais velho”.
Ao invés de dizer, "Eu não sei se valeria a pena viver sem os meus filhos", tente “A vida sem minhas crianças é pesada e dolorosa mas eu estou procurando por razões para encontrar esperança”.

Você pode ser a sua esperança!
A sua vida vale a pena ser vivida, por você e somente por você!
Linda mamãe, você é razão suficiente para viver!
Lute para viver plenamente!



por Emily Long – Still Mothers


 (Tradução livre – Grupo Sobreviver – Junho/2016)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

As festas de final de ano chegaram. E agora??




Para nós que perdermos um filho, a temporada de festas pode ser uma época de esmagadora tristeza e asiedade. Os rituais familiares de união da família pode fazer nos sentirmos sozinhos e isolados.

Enquanto o mundo ao seu redor é comemoração, lidar com a dor e atravessar este momento extremamente difícil é um grande desafio para aqueles que estão de luto. A nostalgia da época pode renovar a dor da perda mesmo anos após a morte da criança. Nesses seis anos desde que o nosso filho, Josiah, morreu, eu descobri que
muitas coisas podem acionar a sensação de perda, cada uma trazendo novas ondas
de luto.

Quando uma criança morre, contraria totalmente a ordem natural da vida. O luto pode ser muito desgastante, tanto física como emocionalmente. Você pode perder a confiança na sua capacidade de tomar decisões ou de confiar nos outros. Perder um filho muitas vezes nos leva a rever conceitos: nós questionamos a vida, a justiça e nossas crenças religiosas. Quando o mundo está caindo sobre sua cabeça é difícil sentir que você tem qualquer qualquer coisa sob controle. Mesmo as tarefas mais comuns na casa e no trabalho podem se tornar dificeis.

Tente aceitar que os próximos dias de festa podem ser um momento muito difícil para você. O primeiro feriado sem o seu filho pode ser especialmente doloroso.
Reconsidere o passado e juntos, como uma família, criem novas tradições para a data festiva. Se você tem outra crianças, pergunte o que eles gostariam de fazer. Em seguida, decidam, em família, a melhor maneira de passar as festas.
Planejar como serão as festas com antecedência não vai mudar a sua perda, mas pode trazer a você uma sensação de controle sobre a ocasião.

Datas comemorativas podem ser dolorosas para aqueles que estão de luto. Por ser tão dificil, não exija muito de si mesmo nesse momento. Respeite sua escolha de como passará o dia e como honrará a memória de seu filho. Muitos pais enlutados vão dizer que olhar para além dos momentos de desconforto lhes ajudou a passar por essa época tão difícil. Muitas vezes, as famílias mudam a seus rituais familiares e optam por fazer algo diferente nas festas, especialmente no primeiro ano após a morte de seu filho. Os pais podem querer buscar refúgio ao realizar uma celebração mais isolada e nesse momento curtir as lembranças a sós.

Quando se trata de luto, as necessidades das outras crianças da família muitas vezes são esquecidas. Converse com seus outros filhos sobre seus sentimentos e como as festas tradicionais ainda pode ser um momento especial para elas. As crianças precisam expressar suas emoções conforme se adaptam à vida sem o seu precioso irmão ou irmã. Permita que elas decidam como celebrar os feriados também. É normal para elas chorar em pequenas doses. Num instante elas podem ser esmagadas por sua tristeza, e no próximo minuto brincam felizes da vida!

Procure maneiras de incluir a memória de seu amado filho em suas comemorações. Encoraje seus filhos a fazer algo criativo ou significativo. Pode ser um cartão ou algo que gostem de fazer. Podem acender uma vela especial, criar um enfeite para a árvore, ou participar de um evento de doação de brinquedos para crianças
carentes. Essas podem ser belas maneiras de honrar a memória de seu filho. Dar algo de si mesmo para outros pode ser a cura para a dor durante a época de festas.

Todo mês de dezembro, a nossa família assiste um coral cantar à noite no cemitério
onde Josiah foi sepultado. Nós também visitamos nosso hospital local.
Nos confraternizamos com famílias enlutadas e visitamos os profissionais
que cuidaram de Josiah. Este ano, nossas filhas irão pendurar o anjo tradicional na árvore de Natal do hospital e juntos confeccionaremos uma coroa de flores para levar ao cemitério. A cada inverno meu marido coloca doces onde Josias está enterrado, enquanto nossos outros filhos colocam pequenos enfeites na árvore de Natal do cemitério com uma mensagem a seu irmão no céu.

Procure maneiras criativas e significantes para honrar seu filho durante todo o ano. Muitos famílias visitam sempre o cemitério em ocasiões especiais como um feriado, aniversário de nascimento ou falecimento da criança. Outros pais acreditam que seu filho está  sempre com eles em espírito. Permita-se sentir a dor e a tristeza. As memórias das boas lembranças de seu filho irão ajudar a lidar com essas festividades.

Te encorajo a buscar consolo em pessoas que compartilham a sua dor. Encontrar
conforto em alguém que esteja disposto a lhe ouvir.

Você pode achar apoio nas redes sociais, já que muitas vezes as pessoas próximas de você podem não entender a profundidade da dor de sua perda.  Você vai encontrar força em quem compartilha de sua perda.

Escolha estar perto daqueles de quem não é necessário esconder sua dor. Aqueles que vão deixar você chorar suas lágrimas e compartilhar seus sentimentos. Você pode sentir necessidade de se distanciar daqueles que são insensíveis a sua dor ou que acham que, por já fazer um tempo, não dói mais.

Nossa sociedade não lida com a morte, e talvez aqueles que nunca passaram por essa tragédia não podem te compreender.

Tenha fé. O luto é um processo de ir deixando de lado o que era para aceitar o que é. É uma angústia e muito dolorido, mas também é a sua salvação. O luto é o processo de como entrar em acordo com a perda de seu filho.

Eu aprendi que você não se recupera após a perda de um filho. Você se adapta.
Você chega a um ponto em que incorpora a perda e essa passa a fazer parte de você.
O luto nos leva por um caminho imprevisível. Eu aprendi que não há nenhum desvio. Há apenas uma única estrada, e que é através dele. E descobri que isso é fato: Nos próximos anos vamos olhar para trás e descobrir que o sofrimento nos ensina sobre a vida. Nossa compreensão da vida vai se aprofundar.

Respeite a si, suas dores e seu momento. Decida com sua família como serão esses dias. Não há regra. Não há caminhos certos. Siga seu coração!

E que você se faça forte o suficiente para permitir-se ser fraco sempre que precisar. Que chore suas dores e a ausência daquele que tanto ama. Não há nada de errado, nem ruim em deixar doer!

(Baseado em carta de Shari Morash, mãe do Josiah)