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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Por favor, não esqueça do meu filho que morreu


Por favor, não se esqueça do meu filho. Este é o meu sincero apelo. Eu sei que você me ama e se preocupa com minha família. Eu sei que você nem sempre entende e eu nem eu espero que você entenda. Eu sei que você não gostaria de causar mais dor aos nossos corações já tão doloridos. Então, você não menciona o meu filho por medo de agitar a poeira que parece ter abaixado. A verdade é que um dos meus maiores medos é a ideia de que o meu filho será algum dia esquecido.

Quanto menos você fala sobre ele, com mais medo eu fico. Não espero que ele seja o tema de todas as nossas conversas. Eu não espero que você o mencione toda vez que eu te encontrar. Mas eu gostaria disso em um momento ou outro. O tempo amenizou aquele sofrimento profundo e sufocante dos primeiros dias e, embora  eu esteja sempre relutante em admitir isso, sei que o mundo continuou. Mas o que eu preciso, e o que eu quero agora é apenas saber que ele não foi esquecido.
Talvez você dizer que um dia desse se pegou pensando nele ou que se lembrou dele. Mas, preciso muito que você se lembre do importante dia em que ele nasceu e no dia em que ele morreu. Veja só, não espero que você conserte nada disso! Sei que você não tem esse poder! De verdade, tudo o eu preciso é saber que eu posso mencionar o nome do meu bebê sem medo, sem culpa e sem incerteza. Preciso saber que ele é lembrado porque ele merece isso! Ele não merece ser varrido para debaixo de um tapete porque alguém teme minhas lágrimas como resposta. Ou porque você acha que meu sofrimento diminuiu. Ou porque você mudou. Ou porque você tem dificuldade em falar sobre ele.
Ele merece mais do que ser esquecido ou permanecer sem ser mencionado. Afinal, ele ainda é meu filho.
Meu filho é uma grande parte de quem sou agora. Você sabe disso. Lembro de seu nome e de seu rosto todos os dias! Mesmo nos dias em que eu sorrio ou nos dias em que a alegria me inunda. Ele ainda está no coração de quem eu sou agora. E eu preciso que você saiba que está tudo bem! É bom falar seu nome tanto num dia ruim ou num dia feliz. Está tudo bem e é o que preciso de vez em quando.
Preciso ter certeza de que sua vida é valorosa ainda. Eu preciso saber que sua história não acabou e que não foi esquecida, mesmo que já tenha passado algum tempo. Preciso saber que não me lembro dele sozinho. E tudo o que é preciso para me lembrar dessas coisas é ouvir o seu precioso nome. Não preciso de presentes, não preciso de flores ou cartões. Eu só preciso que você diga seu nome em voz alta, sem hesitar.
Preciso que você lembre do significado de dias importantes como o aniversário dele. Porque enquanto eles são dias normais para você, por aqui são dias que lembramos, que choramos. São dias que trazem sentimentos extremamente complicados. Não importa quantos anos se passaram. Estes dias são significativos para minha família. E eles sempre serão.
Então, por favor, não se esqueça do meu filho. O maior presente que você pode dar a mim e à minha família é o dom da lembrança. Isso não lhe custa nada. Isso requer muito pouco. No entanto, é mais precioso que o ouro. Ouvir o nome do meu filho é o maior lembrete de que ele não foi esquecido.
E não há nada que eu queira mais!

(Por Jessi Snapp)
Tradução por Grupo SobreViver


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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Fingir que não dói, dói o dobro



Não vou virar a página. Não agora. Não só porque é isso que as pessoas esperam de mim. Não tenho pressa. Há um mês e meio, eu dei a luz à meu filha natimorta. Estou triste e não quero fingir que não estou. Não agirei como se não tivesse acontecido nada, como se fosse eu fosse a mesma pessoa de antes, porque não sou e não o farei. 

Estou triste! Tudo deveria ser diferente!! Eu estava feliz por tudo o que eu estava vivendo até então. Negar minha tristeza seria fingir, e essa não sou eu. Eu adoraria não ser assim, ser quem eu era antes, muito embora me digam que toda essa experiência me fará mais forte. 

Fico quieta, mas não queria ser mais forte, não assim, com um golpe tão grande!!!
Eu não sou corajosa, não escolhi isso. Isso me aconteceu sem eu querer, sem que eu provocasse ou fizesse algo para que fosse comigo. Aprendi que na vida existem coisas que nos fogem ao controle. Que por mais que você planeje, sonhe, às vezes, esses acontecimentos não dependem de você.

Eu vivi uma situação extrema, passei por um nascimento para enfrentar a morte, como diabos eu vou ficar bem? Quando o pai de uma pessoa morre, não ocorre a ninguém dizer "outro virá" ou "você já tem uma mãe". Ninguém substitui ninguém.
Eu não sei por que quando um bebê morre antes de nascer ou quando viveu um curto período de tempo, tendemos a minimizar o valor dessa vida e a dor dessa mãe. Uma vida curta, sim, mas para uma mãe é toda a vida de seu filho. 

Estou triste! Não há dia nem noite que as memórias desse maldito dia não vêm à minha memória. Não há um dia que não pense "Eu queria ter o poder de voltar no tempo". Não há dia em que eu não pense quantos dias eu esperei para conhecê-la, e como seria esse momento. Não há dia em que eu não me lembre de que eu a conheci, mas não do jeito que eu desejava conhecer. Porque quando morre alguém que já viveu muito, você tem memórias. Quando alguém que
mal viveu morre, você tem ilusões. Mas está dilacerada.

Estou triste! Eu choro várias vezes por dia. Eu choro para desabafar minha raiva. Eu choro porque eu sinto isso, porque o corpo me exige isso, a todo e qualquer momento. Porque chorar é o que devemos fazer quando a vida nos derruba. Porque perdi uma filha. Eu choro e estou triste porque é justo e me é permitido, porque é saudável quando algo machuca ou parte meu coração. Eu choro porque alivia. Eu choro porque estou sobrevivendo. Eu choro porque estou triste.

Mas isso não significa que eu vou chorar o resto da vida ou que sempre estarei triste, não significa que eu vou cair de vez. Isso significa que eu vou viver o luto tanto quanto eu posso, que vou sorrir quando eu puder, que às vezes eu estarei bem, mas também terei recaídas. Isso significa que estou tentando, que a vida continua, mesmo que a minha vida não seja a mesma. Isso significa que eu continuarei a sentir dor, mas cada vez menos, significa que não vou sobreviver mas sim viver . Não vou esquecer, vou aprender a viver com isso, o que não é pouco. E ficarei feliz, eu sei disso. Mas tudo na hora certa.

"Fingir a invisibilidade do luto é fingir a invisibilidade da morte, da doença perecível, da doença; em suma, da fragilidade de nossa humanidade. "Freud


Autora:Carmen (www.nosoyunadramamama.com) 
Versão em Português: Grupo SobreViver

sábado, 12 de agosto de 2017

Um pai de coração partido...



Muitos sonham ser pais, e eu sonhei, muito! 
Me imaginava vivendo mil coisas novas, estava preparando minha mente para uma vida totalmente nova! Veio a notícia da gravidez e tudo, depois a descoberta que seria uma menina! Meus olhos e de minha esposa brilhavam. Uma nova vida começa a aparecer em nós, um colorido diferente. As idas ao shopping e supermercados são diferentes, vitrines de roupas infantis passam a conquistar nossos olhos. Durante 9 meses um amor intenso e imensurável se formou... Marcela foi sonhada, desejada, planejada, um mundo novo se criou para sua chegada. 

Mas tudo desmoronou e se desconstruiu por conta de um parto sem assistência. 

A vida perde todo o sentido! Os sentimentos se congelam e os olhares se perdem. Datas comemorativas, como esta, se tornam pesadas e uma verdadeira tormenta, por ser um pai de braços vazios. 

E o sofrimento de um pai é por muitas vezes calado e silenciado. Lembro das inúmeras vezes que me fazia forte dentro de casa para apoiar minha esposa e chorava no banheiro da empresa compulsivamente ou no carro enquanto voltava para casa do trabalho. 

O coração de um pai de braços vazios sangra muito por trás de muitas vezes um sorriso amarelo. 

Mas somos pais e seremos eternamente! Amamos e sempre amaremos intensamente! 

Aos poucos retomamos a vida, sem um pedaço, e sem um pedaço que dói para sempre! Pois as idas ao shopping e aos supermercados de um pai de braços vazios nos fazem lembrar... o ver outras crianças em carrinhos e bebê conforto esmagam o nosso peito! A saudade quando vemos as fotos da gravidez, as lembranças do Facebook... 

Dói, dói muito! E dói porque somos pais de verdade e SEMPRE seremos, pois sempre amaremos e sempre carregaremos nossos filhos e filhas em nossos corações e lembranças! 

Hoje, após a perda da minha preciosa Marcela, tenho a Manuela, que veio trazer cores lindas e especiais em meu viver! Porém sou Pai de duas lindas meninas e a Manuela jamais tomará ou substituirá a Marcela, da qual não me esqueço nem um dia da minha vida. 

Queridos pais, apesar dos braços vazios, sejamos fortes, pois a vida está diante de nós e apesar das dores que carregamos há um mundo de possibilidades! E dentro dessas possibilidades está a possibilidade de viver novas alegrias e suportar um pouco melhor as dores que também carregamos. 

Um fortíssimo abraço, cheio dos mais nobres sentimentos! E nunca, jamais se esqueçam que chorar e sofrer também é viver, e que NINGUÉM tem o direito de invalidar tal sentimento, seja por conta de tempo ou qualquer outra razão. 

Marcelo, pai da Marcela e da Manuela.

sábado, 6 de agosto de 2016

Amando meu corpo após uma perda gestacional ou neonatal




Amar meu corpo não é uma coisa fácil para mim.

Não completamente...

Veja, eu tenho duas filhas. Ambas morreram antes do nascimento. E, embora eu realmente não fale muito sobre isso, porque eu não estou 100% certa, eu tenho certeza que eu tive um outro aborto precoce entre essas duas gestações.

Meu corpo nunca trouxe com sucesso uma criança viva do meu ventre para meus braços. Ele falhou com todos os meus bebês, e a comigo também...

Passar por uma perda gestacional/neonatal é algo que pode realmente estragar a relação de uma mulher com o seu corpo. Meu sentimento (e o de centenas de outras mães que tiveram perdas como eu) é que fui traída pelo meu próprio corpo. Ele fracassou em trazer os meus bebês com segurança até o nascimento e para vida fora do útero. Muitas vezes há uma sensação de que há algo de errado conosco ou com nossos corpos que causaram a morte de nossos filhos.

Eu senti como se meu corpo estivesse me punindo.

Outras mulheres me disseram que sentiam que seu ventre era como uma zona de guerra ou uma armadilha mortal para os seus bebês.

Isso é muito real quando não temos nenhum filho vivo nos braços: quando não temos nenhuma evidência de que o nosso corpo pode permitir uma gestação tranquila e um bebê saudável ao nascer.

O mundo gosta de nos dizer que o corpo de uma mulher é feito para nutrir seus filhos e também feito para trazê-los com vida a esse mundo, e que podemos confiar nele, porque ele naturalmente sabe como gestar e parir. Isso é um conceito maravilhoso!! Mas o que acontece quando ele não pode ou simplesmente não o faz por razões desconhecidas? O que acontece quando os nossos filhos morrem várias vezes dentro do útero que, supostamente, é o lugar perfeito para nutrir e protegê-los?

Como é amar e confiar em seu próprio corpo depois disso?

Já fazem 13 anos desde que minha primeira filha morreu e mais de 6 desde a que minha segunda filha morreu também. Eu ainda enfrento esse sentimento de ter sido traída pelo meu próprio corpo.

Nos últimos dois anos, no entanto, eu tenho trabalhado para aprender a amar e confiar em meu corpo novamente. Não tem sido fácil. Minha terapeuta não gosta quando eu falo sobre o meu corpo ter falhado ou me traído. Ela se esforça para entender, mas é difícil para ela, pois tem dois filhos lindos, vivos, respirando e saudáveis, de modo que sua experiência com seu corpo e habilidades do seu corpo é muito diferente da minha. Seu corpo fez o que deveria fazer: alimentou e fez nascer os seus filhos para a vida na Terra.

Ainda assim, como terapeuta, tem me ajudado  a aprender a ser mais amorosa e confiante com o meu corpo. Aprender a aceitá-lo e ser gentil com ele, em vez de ficar ressentida e com raiva. Aprender a cuidar do meu corpo e nutri-lo, ao invés de punir e abusar dele. Para ouvir o meu corpo, em vez de ignorar e rejeitar sua sabedoria.

Eu gostaria de poder dizer para você agora: "Esse é o caminho que eu descobri! Veja como você fazer as pazes com seu corpo novamente e aprender a amá-lo. "

Mas eu não posso. Estou cada dia mais perto de descobrir isso por mim mesma, mas eu ainda não cheguei lá.

Por enquanto, meu comportamento padrão é ainda desconfiar dele. Eu ainda luto para me sentir completamente segura de sua capacidade de me abrigar com segurança e ser saudável e forte.  Optei por não tentar ter mais filhos, porque eu não confio em sua capacidade de mantê-los seguros.

No entanto, tenho percorrido um longo caminho. Nesses quase 3 anos venho trabalhando na criação de um melhor relacionamento com o meu corpo. Estou significativamente mais amável, mais compassiva, mais carinhosa, e mais confiante nele do que eu era há 3 anos atrás.

Eu o escuto mais: ele compartilha um monte de informações úteis comigo quando eu dedico meu tempo para ouvi-lo.

Eu o alimento melhor: consumo alimentos mais saudáveis, pratico atividade física, também me movimento mais. Falo com meu corpo de maneira mais gentil e sei melhor hoje sobre o que ele precisa.
Eu o aceito mais. Não estou completamente feliz com seu tamanho ou forma, mas aceito melhor como ele é. Chamo carinhosamente a minha barriga de Buddha (porque me faz rir e quem pode ficar com raiva de Buda?).




Perdoá-lo é um processo. É um processo que leva muito tempo e precisa da minha atenção. Não é muito diferente de perdoar entes queridos que, profundamente, já tenham nos magoado. Não é muito diferente do luto por minhas filhas. Esse sentimento  vai e vem em ondas - alguns dias eu sinto amor e carinho pelo meu corpo, outros dias não tanto.

Amá-lo e perdoá-lo é uma escolha que tenho que fazer todos os dias. Todos os  momentos. Algumas vezes eu falho nisso. Outras faço isso muito bem! Gosto de pensar que estou ficando melhor nisso com o tempo e pelo meu esforço a cada dia. Tenho esperanças de que um dia, eu vou simplesmente ser capaz de amar e confiar neste meu corpo, de forma fácil e o farei incondicionalmente.

Eu gostaria de poder dizer que sou a única que luta com isso, porque não é um coisa fácil ou divertida de vivenciar. No entanto, eu sei que eu não sou e que isso é muito, muito mais comum do que qualquer um de nós pode imaginar. Amar e aceitar o próprio corpo após um aborto ou óbito fetal é um desafio. Muitas vezes não se fala sobre isso, mesmo nos grupos de gravidez ou de perdas.

Falar sobre isso muitas vezes leva os outros (geralmente as pessoas com pouca ou nenhuma experiência de perda gestacional) a tentarem me fazer sentir melhor ou me dizerem que meu corpo ainda merece confiança e amor e carinho. É bem intencionado, mas inútil.

Acredite em mim, eu quero ter um relacionamento amoroso e de confiança com o meu corpo. Estou trabalhando duro nisso!

Nesse meio tempo, eu desejo que as outras pessoas apenas reconheçam a minha dor de não vivenciar isso. Eu só quero que você compreenda a dor e raiva que eu sinto em relação ao meu corpo por não manter minhas bebês seguras e protegidas. Você não tem que concordar comigo. Apenas aceite minha dor como justa.

Me deixe onde estou. Sem pressão. Respeite meu momento e continue me amando apesar disso.

Me ame até que eu possa aprender a amar o meu corpo novamente. 

Alimente-me até que eu possa aprender a nutrir meu corpo novamente.

Aceite-me onde estou até que, um dia, eu vou ser capaz de dizer com total confiança no que digo:

"Meu corpo fez o melhor que podia e eu o amo por isso."




(Texto de Emily Long – Traduzido livremente – Grupo SobreViver)