Assistindo ao Pequeno Príncipe, me pareceu o certo a fazer escrever tudo que o filme me fez pensar e reviver...
No dia 20/07/2017, acordei feliz sabendo que o momento de conhecer você, meu Iure, estava próximo. Eu estava arrumando os últimos detalhes para sua chegada, antes mesmo de imaginar que você viria antes. Já tinha visto este difusor do Pequeno Príncipe, então neste dia fui compra-lo. Seu quartinho estava lindo e cheiroso para recebe-lo, mas o nosso destino já estava traçado. Você não pôde desfrutar do seu lindo quarto e eu não pude lhe contar a linda história do Pequeno Príncipe. E o difusor estava aqui, sem utilidade pra mim, me fazendo lembrar de você todas as vezes que olhava para ele. Esta semana resolvi usá-lo aqui na sala, do lado da sua foto.
Só então reparei em uma frase que está escrita em uma tag que veio nele: "Então, eu me sinto feliz e todas as estrelas riem docemente."
Isso me trouxe um certo consolo, saber que aonde você está não tem choro, nem dor, nem sofrimento. Você está feliz, um anjo perfeito, lindo e muito amado, brincando ao redor das estrelas e sei que, ao seu lado, elas riem docemente!
A dor pode sim amenizar, mas o amor e a saudade só crescem, dia após dia.
Ariane Baptista Ribeiro
(Ariane é mãe do Iure e integrante do Grupo SobreViver)
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
sábado, 6 de janeiro de 2018
"Você já não deveria ter superado isso?” Como responder ao julgamento sobre seu Luto
Um
leitor me enviou esta pergunta:
Como posso lidar com pessoas que esperam que eu já tenha
“superado”? Minha noiva morreu quase dois anos atrás. Como posso
convencê-los, que está tudo bem em eu ainda não ter “superado”?
Embora
essa pergunta tenha sido enviada por um leitor, muitas pessoas sofrem com essa
questão. Eu aposto que você teve pelo menos alguns experiências com
pessoas que tentaram te ensinar o modo “correto” de sofrer e “superar”.
Muitas
pessoas esperam que você supere, não é?
Eles
não conseguem entender o que é ser você, viver dentro de um sofrimento como esse. Eles só querem o
você "velho"de volta, não entendendo que esse “antigo você” mudou
profundamente.
É tão
tentador, quase automático, argumentar o seu direito ao seu sofrimento, e
descrever para outras pessoas todas as coisas que mudaram, todas as maneiras
que a falta do seu filho dói em você, e como isso afeta todas as áreas da sua
vida.
A
coisa é, não importa o quanto você diga, não importa o quanto você tente
educá-los, a verdade é que eles não
conseguem entender. É muito tentador falar sobre todos os
seus motivos (mesmo bem explicadinho), mas suas palavras nunca irão surtir
efeito.
Então
o que você pode fazer?
Às vezes, é mais fácil para você, seu coração e mente ficarão mais
leves, se você simplesmente parar de tentar explicar.
Recusar-se
a explicar ou defender o seu sofrimento não significa que você deva deixar as
outras pessoas continuarem a falar sobre isso, continuamente dizendo como você
deve viver. Estou falando se recusar a participar de debates sobre se a
sua dor continua é válida ou
não .
Argumentar
em sua defesa para alguém que não consegue entender é um desperdício de seu
tempo e de sua (pouca) energia emocional
É importante lembrar que, seu sofrimento, assim como
seu amor, pertence a você. Ninguém tem o direito de ditar, julgar ou
desprezar o que é seu para viver.
Entretanto, mesmo as pessoas não tendo o direito de julgar não impedem
que elas o façam.
Isso
significa que: se você quiser parar de ouvir as pessoas te
julgando, você precisará deixar claro os seus limites. Você precisará
deixar claro que seu sofrimento não é assunto para ser debatido. Que você não
permitirá isso.
Claro
que é mais fácil falar aqui do que agir, então sugiro alguns passos que você
pode tomar para sair da discussão:
1. Dizer, clara e
calmamente, que entende a preocupação da pessoa.
2. Esclarecer seus
limites.
3. Redirecionar a
conversa. Fale de outro assunto. Mude o foco.
Esses três passos, quando usados de forma
consistente, podem reduzir significativamente a quantidade de julgamentos que você
costuma ouvir.
Veja na prática:
Primeiro,
reconheça a preocupação do outro, enquanto diz saber das boas intenções dele:
"Agradeço seu interesse na minha vida".
Em
segundo lugar, deixe BEM claro seus limites: "Eu vou viver dessa maneira
que me parece adequado, e que tem funcionado para mim, e não estou interessado
em discutir isso".
Um
outro jeito: etapas um e dois – reconhecendo a preocupação do outro e esclarecendo
os seus limites - muitas vezes podem vir juntos em uma frase: "Agradeço o
seu interesse na minha vida. Eu vou viver dessa maneira que me parece
adequado e que tem me feito bem, e não estou interessado em discutir isso
".
Isso
pode se tornar ainda mais eficaz se você juntar a etapa número três,
redirecionando a conversa, também mudando de assunto: "Estou feliz em
falar sobre outra coisa, mas isso não está aberto a discussão".
Parece muito duro e frio, eu sei. Mas a
mensagem aqui - incluindo a formulação formal - é que você tem um limite claro,
e você não permitirá que isso seja violado de nenhuma maneira.
Se
houver pessoas em sua vida que não percebam esse limite tão claro sem mais
argumentos, você pode manter uma frase na manga - "Esse não é um tópico
que vou discutir" - e depois mude a conversa para outra coisa.
Se
eles não conseguem fazer isso, você pode terminar a conversa completamente - vá
embora, diga adeus e desligue.
O importante é não permitir que você seja atraído para a
batalha. Seu sofrimento não é um argumento. Não precisa ser
defendido.
É
estranho no início, mas esclarecer seus limites e redirecionar a conversa se
tornará muito mais fácil quanto mais você praticar.
Eventualmente,
as pessoas em sua vida entenderão o recado - não que você não precise superar
isso, mas que você não está disposto a discutir isso - ou eles
vão cair fora.
O
problema é que o sofrimento reorganizará completamente seus
relacionamentos. Algumas pessoas irão embora, e algumas ficarão.
Se
as pessoas em sua vida puderem lidar, até mesmo aceitar isso, você ser
verdadeiro consigo, com seus sentimentos e dores, então eles ficarão ao seu
lado. Se eles não conseguirem entender, deixe-os ir: graciosa, claramente
e com tranquilidade e amor.
Texto
de Megan Devine
Versão
em Português por: Grupo SobreViver
Publicado
originalmente em https://www.huffingtonpost.com/megan-devine/grieving-process_b_5065323.html
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Quando a dor de quem sofre, sufoca quem aconselha
É fácil dar conselhos ou julgar quando não se viveu a situação. É fácil dizer: "Supere!" Ou: "Já chega!" quando o espinho não arde na própria carne. Quando não se conhece a dor do outro. Quando não se traz na bagagem a mesma história de vida.
É difícil colocar-se no lugar de quem sofre. É difícil entender o que se passa, mesmo que se tenha vivido uma situação semelhante, pois o jeito com que se lida com o que te acontece hoje, depende de como foi todo seu passado, aprendizados e vivências anteriores. O que dói em mim, pode não doer em você. Ou pode não doer do mesmo jeito. O que me machuca, ou me é árduo lidar, pode ser mais simples para você e vice-versa.
Há uma sociedade, regida por regras, que se encarrega de ditar como e até quando devemos nos sentir assim ou assado. Gente que te diz: "fica feliz, porque te falta uma perna, mas você tem os braços". Gente que diz que é "plano de deus", que "vai passar" ou outra pérola do gênero. E as palavras, muitas vezes carregadas das melhores intenções, cheias de amor, daqueles que, se pudessem, fariam uma limpeza de toda tristeza e te deixariam em pé de novo, acabam por machucar ainda mais!
Quando eu digo: "Supere!" ou "confie em deus" ou ainda: "você é fraco, ainda vive esse sofrimento" na maioria das vezes estou dizendo: "Ei, pelamordedeus, pára de sofrer porque eu não sei lidar com isso! Pára de chorar porque não sei dar colo, não sei o que fazer. Esquece essa dor porque falar nela me lembra das minhas dores, aquelas que eu mesmo fiz questão de jogar para debaixo do tapete para não ter que lidar com elas". E então acontece, mais uma vez, a culpabilização da vítima, aquele que sofre, por aquele que está de fora. Quem chora é culpado por sofrer, por querer desabafar, chorar a própria dor.
Fazer perguntas que nunca terão respostas, esbravejar, demonstrar os sentimentos mais inaceitáveis. E o interlocutor, em sua dificuldade em acolher, acusa. Acusa o outro de fraco, de inadequado. E nisso se recusa a ver, que, não há nada de mal em o outro chorar. É justo! Pode não ser um problema tão grande para um, mas se dói no outro, se sufoca ou tira o chão, que mal tem chorar? Que mal tem sofrer?
Acolhimento não significa sempre ter um bom conselho, ou tentar tirar o outro do sofrimento. Um bom acolhimento é aquele que valida a sua dor. Que, mesmo não compreendendo o que você sente, te dá espaço para que todo sentimento seja manifestado e assim, validado. É quando quem sofre encontra espaço para manifestar o que carrega dentro de si que as dores vão sendo expostas e elaboradas. E o sofrimento vai aos poucos se transformando.
Não se deve obrigar o outro a se sentir grato por uma provação. Precisamos assumir que não é o outro quem tem que deixar o sofrimento de lado e sim nós que precisamos lidar melhor com o choro desse alguém. Assumir que todo sentimento é justo e que, se não temos condições emocionais próprias, para ouvir e acolher, pelo menos vamos garantir que nossos dedos não estão em riste, apontando falhas no outro que na verdade são nossas.
Não é o outro que precisa parar de chorar e sim eu que preciso saber lidar melhor com isso. E reconhecer que se me incomoda, se não aguento o tranco, devo permanecer em silêncio.
Como já diz a sabedoria popular: " Muito ajuda quem não atrapalha". E sempre. Sempre e sempre, na maior parte das vezes, se não em todas elas, o que o outro precisa de você são duas (sinceras) palavras: "Sinto muito!"
Texto de Flávia Cunha
Publicado em 30/12/2015
sábado, 30 de dezembro de 2017
Um (não tão) Feliz Ano Novo...
Se tem uma coisa que eu aprendi sobre o sofrimento, desde que perdi meu filho pouco depois do nascimento a termo em julho de 2016, é que o luto nos arrebata quando você menos espera. Quando eu imaginava antecipadamente que uma certa data seria muito cruel de passar, o sofrimento geralmente aparecia alguns dias antes de tal data. O primeiro aniversário do meu filho, por exemplo, ou o que deveria ter sido seu primeiro Dia de Ação de Graças.
No último final de ano, época das festas, eu já estava bem aflita em como seria o Dia de Ação de Graças e o Natal. Mas para minha surpresa, foi o Ano Novo que me derrubou. Tinha medo que as pessoas esperassem que um novo ano me trouxesse esperança. Um novo começo. Uma chance de olhar para frente, em vez de para trás. Mas essa expectativa é apenas um ótimo exemplo de como a maioria das pessoas, embora carinhosas e bem intencionadas, entendem mal os sentimentos dos pais em luto.
A passagem do tempo
Talvez tenha sido a minha escolha para me concentrar na vida do meu filho em vez de sua morte. E esse tempo, entre hoje e aquelas poucas horas preciosas que tive com ele, é totalmente o oposto de reconfortante ou esperançoso para mim.
Um ano novo significa mais distância entre meu filho e eu. 2016 foi o ano de Jacob, e assim que o relógio atingisse a meia-noite de 1º de janeiro de 2017, nunca mais seria o ano de Jacob. Eu não podia mais dizer que eu tive um filho "este ano". Em vez disso, seria "ano passado". Ou, dentro de algum tempo, "há 2 anos", "3 anos atrás", e assim por diante. Quanto mais tempo passasse, mais as pessoas esperariam que eu tivesse superado ou que meu sofrimento tivesse diminuído. Eu sabia que esse não seria o caso. O trauma de perder um filho não é como o trauma de um acidente de carro ou um procedimento médico doloroso. Se o seu trauma é a perda de um filho, colocar mais tempo entre você e seu trauma não alivia a dor.
O tempo não cura esse trauma porque a fonte do seu trauma é o amor, e esse amor é algo que você deseja se apegar o máximo possível.
Dor de Ano Novo
Então, se sua perda for mais recente do que a minha, ou talvez, mesmo que não seja, não se surpreenda se o sofrimento de Ano Novo se agarrar em você. E se você é capaz de explicar isso aos seus amigos e familiares, talvez eles ganhem uma melhor compreensão de como os pais enlutados se sentem. Mas também vou oferecer algumas palavras que eu espero que sejam reconfortantes. À medida que eu chegar em 2018, posso dizer que estou com menos medo de virar essa página do calendário do que em 2017.
Desde que o tempo passou e continuei a falar sobre Jacob, a maioria das pessoas na minha vida parece entender que, o tempo passar não é a resposta para o meu sofrimento. Na verdade, eles não devem esperar que eu pare de lamentar nesta vida. E isso é reconfortante. Meu outro grande medo - que, com o tempo, minhas memórias de minhas poucas horas com meu filho desapareceriam - também foi atenuada. De alguma forma, mesmo com o passar do tempo, lembro facilmente como ele era e o que senti em olhar para o rosto dele. Nunca vou deixar de desejar ter mais tempo com ele, mas pelo menos agora tenho menos medo de que essas memórias desapareçam. E assim, a passagem do tempo é um tanto menos aterrorizante do que no ano passado.
Se o sofrimento te atinge em cheio neste Ano Novo, saiba que você não está sozinho, e que esses sentimentos são muito, muito válidos. Mas tenha o conforto de que a passagem do tempo não pode distanciá-lo do seu filho, tanto quanto você pensa. Seu amor pelo seu filho é forte e preservará sua memória melhor do que você pensa.
Desejo um 2018 tão cheio de paz quanto possível e cheio de amor e memórias de seu filho amado.
Texto de Elizabeth Yassenoff
Publicado originalmente em: http://stillstandingmag.com/2017/12/not-happy-new-year/
Tradução Livre: Grupo SobreViver
domingo, 24 de dezembro de 2017
Meu Primeiro Natal sem Ela
24 de dezembro de 2014. Nosso primeiro Natal (aqui do lado de fora da barriga). Ela com 8 meses e 12 dias engatinhando pela sala, fascinada com as luzinhas da árvore de natal. A nossa (pequena) família reunida, um jantar preparado com todo capricho. Um presente escolhido com muito amor, embrulhado embaixo da árvore para ela abrir sozinha. Eu, cansada das noites em claro, com as costas doendo de correr atrás dela. Nossa casa com brinquedos espalhados por todos os cantos e o amor explodindo nos nossos corações!
Autoria: Flávia Cunha
Era o plano perfeito! O sonho mais do que lindo! Mas meses antes ele se.desfez por entre meus dedos, e, numa fração de segundos minha menina não respirava mais. Não haveria natal com ela. Nem páscoa, nem aniversário de um aninho, nem primeiro dia na escolinha... Nada mais. Nenhum dos meus sonhos se tornaria realidade. Exceto um: Eu havia me tornado mãe sim. Porém, mãe de colo vazio. Naquela UTI me despedi dela sem conhecer a cor de seus olhos, e fazendo todo o esforço do mundo para me manter em pé. Respirando.
Os dias se passaram, semanas, meses e o primeiro natal sem ela chegou. Frio na barriga, a cabeça girando. Como seria? Que motivos eu tinha para festejar? Então decidimos ouvir nossos corações e vontade de estarmos só. Explicamos para nossa família o quão doloridos estávamos. E que doía até mesmo respirar. O natal não vazia mais sentido. Os braços vazios. A casa vazia. Sem árvore, sem enfeites, sem sonhos, sem minha preciosa menina!
Preparei umas esfihas. Ligamos a TV no Netflix e fizemos uma maratona de seriados. Espalhados no sofá, de pijamas e janela fechada. Fizemos questão de fingir que não estava acontecendo nada lá fora. Celulares e notebooks desligados. Redes Sociais desativadas. Só ouvíamos naquele dia nosso desejo de estarmos sós.
A madrugada chegou e horas depois, o amanhecer. Era dia 25 e seguimos como num dia comum.
E, finalmente aqueles dias acabaram. Natal e Ano Novo se foram. Dormimos durante a virada e só fiz um pedido antes da meia noite, segundos antes de adormecer: precisava de forças. Só isso!
2015, 2016, 2017. Nosso quarto Natal sem ela. Uma irmã chegou nos trazendo alegrias, mas não diminuiu a saudades e a falta que ela faz. Hoje somos três em volta de uma árvore tímida. Não é tão sufocante como na primeira vez. Acredito que por termos nos respeitado nos outros natais e termos ficado sós, e termos deixado doer o que precisou, hoje nos sentimos mais fortes e mais inteiros. Como poderíamos cobrar de amigos e familiares respeito à nossa dor se nós mesmos não nos acolhessemos? Hoje, somos três. Três desejos de que fôssemos quatro hoje. E sempre.
2015, 2016, 2017. Nosso quarto Natal sem ela. Uma irmã chegou nos trazendo alegrias, mas não diminuiu a saudades e a falta que ela faz. Hoje somos três em volta de uma árvore tímida. Não é tão sufocante como na primeira vez. Acredito que por termos nos respeitado nos outros natais e termos ficado sós, e termos deixado doer o que precisou, hoje nos sentimos mais fortes e mais inteiros. Como poderíamos cobrar de amigos e familiares respeito à nossa dor se nós mesmos não nos acolhessemos? Hoje, somos três. Três desejos de que fôssemos quatro hoje. E sempre.
Saudades, minha Amorinha!
Te amo, Sempre!
Autoria: Flávia Cunha
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
O que eu sinto faz parte do luto ou estou com depressão?
O que é o luto?
Para começar essa explicação, vou dar um contra-exemplo: se uma pessoa perde por exemplo o seu celular, essa perda impacta áreas limitadas de sua vida (principalmente a sua conta bancária, pois obriga a comprar outro aparelho), e pode até trazer uma certa tristeza ao lembrar por exemplo das fotos que essa pessoa tinha lá e não vai recuperar. Mas essa perda não muda quem essa pessoa é; não muda sua identidade, nem seus planos para o futuro, nem o significado de eventos na sua história. Então, podemos dizer que há sentimento de tristeza, mas não vamos descrever isso como um processo de luto.
Por outro lado, se uma pessoa perde por exemplo o seu marido, essa perda, além de forçar mudanças em áreas extensas da vida tais como, além da conta bancária, a casa, a rotina, os hábitos de sono,de alimentação, a compra do supermercado, a quantidade de roupa para lavar, o cuidado com os filhos, o relacionamento com a família do cônjuge, essa perda também impacta diretamente aspectos da vida relacionados à identidade. Questões do tipo “quem sou eu?” (se eu sou casada ou viúva, se eu sou uma pessoa solitária ou não, se eu gosto de ficar em casa ou não, se eu tenho família ou não) aparecem na sequência deste evento, exigindo revisões. Assim também seus planos para o futuro precisam ser revistos: se pretende ter mais filhos ou não, o que pretende fazer na sua aposentadoria, o que fará nas próximas férias… A percepção desta mudança que aconteceu com a morte do ente querido traz muita tristeza; todo esse processo de reavaliações e mudanças nas interpretações e ideias consome muito tempo e energia. A esse processo como um todo damos o nome de luto.
Assim, o luto é um processo natural e muito necessário que nos permite nos adaptar a uma nova realidade. Sem ele nós não conseguiríamos nos ajustar ao que aconteceu; continuaríamos tentando viver da mesma maneira que vivíamos antes. A pessoa que perdeu o marido continuaria tentando falar com ele antes de decidir o que cozinhar no jantar; e ao não conseguir fazer contato com ele, continuaria se sentindo triste e frustrada. O processo do luto permite que se crie uma nova forma de viver, uma nova rotina que incorpora o fato acontecido. Talvez tenha coisas que ela precise aprender a fazer sozinha, coisas que ele fazia por ela. Talvez ela não soubesse dirigir. Quando ela aprende a fazer essas coisas, precisa rever de novo ideias relacionadas à identidade: quem sou eu? Eu era alguém que não sabia dirigir, mas agora eu sou uma motorista. Essa pessoa que perdeu o marido, além de perceber que não pode mais contar com ele para decidir o cardápio do jantar, talvez também decida fazer outras mudanças, talvez perceba que agora não tem sentido mais cozinhar no jantar, e passa a fazer compras para um lanche, e vai de carro até o supermercado. Nesse momento ela passa a poder atravessar essa parte do dia sem entrar em contato tão intenso com o sentimento de perda; sem se frustrar por tentar conversar com alguém que já não está lá; talvez com mais leveza por uma rotina mais fácil de manejar. Ela nunca vai deixar de sentir saudades do marido, mas talvez agora lembre dele de um jeito mais com ternura que com dor. E esse é o trabalho do luto. Por paradoxal que possa parecer, pois o luto é um processo muito dolorido, ele é o caminho de ajuste à mudança que nos permite deixar de sentir tanta dor. É como o processo de cicatrização de um corte: primeiro inflama, fica quente, vermelho, dolorido. Mas é justamente esse processo inflamatório que depois leva a ferida a se fechar. Quando lembramos disso, fica mais fácil ver que o luto é um processo natural e necessário.
Preocupante mesmo é quando o luto não acontece, ou quando ele “enrosca”, ou “empaca”. E isso pode acontecer quando junto do luto está acontecendo um processo de depressão.
Mas então, o que é depressão?
Como disse no parágrafo anterior, a depressão pode ser causada por fatores fisiológicos, ambientais ou comportamentais. Assim, nem sempre é necessário o uso de medicamentos antidepressivos para o tratamento da depressão. A terapia pode ajudar a modificar os aspectos ambientais e comportamentais e trazer um alívio significativo, e muitas vezes essa modificação é o fator chave do tratamento e da prevenção de recaídas. Porém, como também mencionado acima, quando se instala a depressão o cérebro como um todo não está funcionando tão bem quanto deveria e as capacidades de atenção, aprendizado de novos comportamentos, e a sensibilidade a estímulos prazerosos estão reduzidas. Isso torna a terapia mais difícil, pois o sucesso da terapia muitas vezes depende do aprendizado de novas estratégias e comportamentos. É por esse motivo que, como diversos estudos indicam, o melhor resultado para o tratamento da depressão está na combinação dessas duas estratégias; a medicação para um alívio de curto prazo e um aumento na plasticidade do cérebro, (que é a capacidade de se aprender coisas novas e de se modificar), e a terapia para a promoção das modificações duradouras que permitem se tornar independente do medicamento e nos protegem das recaídas.
Como se pode perceber, o luto e a depressão são duas coisas bem diferentes. Um é um processo normal, necessário e adaptativo; a outra é uma doença que pode levar à morte em casos extremos. Porque essas duas coisas se confundem tanto uma com a outra? E principalmente: existe relação entre luto e depressão?
Para responder a essa pergunta, eu vou fazer uma analogia: vamos dizer que o luto é uma gripe, enquanto que a depressão é uma pneumonia.
Como é uma gripe? Em geral, tem evolução benigna, e se estiver tudo bem com a pessoa, se estiver saudável, se alimentando bem e descansando, o corpo consegue resolver isso sozinho. Pode levar um tempo, e a pessoa pode até querer tomar um antigripal para ajudar a lidar com os sintomas, mas em geral no final dá tudo certo. O luto também: em geral evolui bem, e se a pessoa estiver razoavelmente equilibrada, sendo cuidada por seus entes queridos, em um ambiente minimamente adequado, onde as pessoas respeitem seu tempo e seus sentimentos, costuma se resolver sozinho. Pode até levar um tempo, e a pessoa pode querer contar com um auxílio de um grupo de apoio ou uma psicoterapia para lidar com os sintomas, mas no final dá tudo certo.
Mesmo assim, uma gripe pode ser preocupante em alguns casos: se a pessoa já tem doenças respiratórias prévias, tipo asma; se a pessoa está com o sistema imunológico enfraquecido, ou se já está doente com alguma outra coisa. É mais difícil de tratar se a pessoa vive num lugar com um ambiente muito ruim: se o ar é muito frio, muito seco, ou muito poluído. E normalmente nesses casos a gripe preocupa justamente porque pode virar uma pneumonia. Igual o luto: se a pessoa já não vinha bem, já enfrentava algum tipo de sofrimento emocional como uma história de abandono ou invalidação, se tinha perdas anteriores não resolvidas, ou se vive num ambiente muito hostil, onde não tem apoio, é silenciada, julgada, a coisa pode se complicar. E nesse caso, o luto pode virar depressão, que é como uma pneumonia: é mais preocupante, merece mais cuidado, pode evoluir mal, normalmente precisa de medicação pra se resolver. Não pode bobear.
Então veja: não é que uma coisa sempre leva à outra; você pode ter uma gripe e ela nunca virar pneumonia, assim como vc pode ter pneumonia sem ter tido gripe. Mas dá pra dizer que estar com gripe pode aumentar a sua chance de ter pneumonia em alguns casos, porque ela te deixa mais vulnerável. Assim também o luto e a depressão: muitos lutos se resolvem bem sem virar depressão, e muita gente tem depressão sem ter tido luto. Mas o processo do luto é exigente para o nosso corpo, para a nossa mente, e para as nossas emoções, e pode nos deixar mais vulneráveis. É nesse sentido que muitas vezes a terapia ou os grupos de apoio podem nos proporcionar aquele descanso tão merecido que acelera nossa recuperação, e previne uma evolução ruim. E caso mesmo assim a coisa se complique e o luto vire depressão, a gente já venceu aquela etapa de ter que se apresentar pro terapeuta ou no grupo pra explicar tudo o que está acontecendo, e pode contar com um auxílio mais imediato.
Autoria: Tatiana Perecin - psicóloga
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
Em luto nas festas de final de ano – Um guia de sobrevivência
“É a época mais maravilhosa do ano”. Uma música otimista e
cativante proclama isto, então deve ser verdade! A menos que não seja. A menos
que seja o oposto da verdade. A menos que os cumprimentos de Feliz Natal e
Feliz Ano Novo e as reuniões mais felizes, e aqueles amigos que irão telefonar sejam
exatamente o oposto do que gostaria. A menos que você não esteja comemorando e
seu coração esteja longe de brilhar.
Eu não pretendo oferecer uma cura mágica para o luto durante
o que é a época mais dura do ano para o enlutado. Mas como estamos cada vez mais
próximos do final do ano (já temos árvores de Natal nas lojas, pelo amor de
Deus), eu me sinto compelida a compartilhar o que me atrapalhou na época mais
difícil do ano e que continuou apesar dos meus protestos, logo nos primeiros
meses após a perda de Jacob no ano passado.
Como eu disse muitas vezes antes, cada um sofre de uma forma
diferente, então definitivamente pegue minha abordagem e faça a sua própria.
Talvez os feriados te trarão uma distração mágica e você talvez aproveite muito
– E está tudo bem! Talvez você seja forçada a passar reto pelos sentimentos
porque você tem mais filhos, e isto é admirável! Talvez você esteja em algum
lugar no meio disto tudo, mas aqui estão algumas ideias que eu espero possam diminuir
a dor dos seus feriados.
1. Desative suas mídias sociais (ou pelo menos limite seu
tempo nelas). Comparações são ladras da felicidade, especialmente quando você
compara sua vida em luto com a vida cheia de brilho que todo mundo posta no
Facebook ou Instagram. Então simplesmente não faça. Tempos em particular para
evitar: Halloween, Ação de Graças, o mês de dezembro e o Ano Novo.
2. Deixe que outra pessoa lide com os doces na noite das
Travessuras e Gostosuras. Se você for como eu, Halloween talvez não passe
imediatamente como gatilho pela sua cabeça, mas entre mídias sociais e
Travessuras e Gostosuras você pode evitar bebês fofos e crianças em fantasias,
e o doloroso pensamento que você não terá isto com o seu pequeno, este ano ou
qualquer outro ano.
3. Está tudo bem dar graças. Ou não. O dia de ação de graças
foi muito difícil para mim, não somente porque sempre foi meu feriado favorito
e agora eu não irei compartilhar isto com meu filho, mas porque eu me sinto
culpada por não me sentir grata. Uma vez que eu reconheci que eu estava
realmente agradecida por muitas coisas na minha vida mas este ano um sentimento
de gratidão geral era compreensivelmente impossível para mim, eu fui capaz de
deixar a culpa sair, relaxar, e passar pelo dia. Está tudo bem se o
agradecimento não está no topo dos seus pensamentos para você neste dia de ação
de graças. Isto não significa que você é ingrata com as bênçãos que você tem,
isto somente significa que você está se permitindo ter espaço para o seu luto, o
que é muito necessário. Então eu te encorajo a participar do dia de ação de graças, na medida do possível
para você, mesmo que não signifique nada.
4. Incorpore seu bebê em todas as celebrações que você
estiver. Jacob está representado em todas as nossas festas, seja com uma vela
especial para ele, a presença do Ursinho Jacob (da Molly Bears), ou uma oração
especial. Certificarmos que ele é lembrado é o único caminho que parece certo
para passar pelas emoções na medida em que fizemos.
5. Tenha alguém para olhar sua caixa de correios. Cartões de
Natal com famílias (completas) e felizes podem ser um grande gatilho quando
você sabe que um membro da família sempre estará faltando em seus cartões. Eu
descobri que é melhor não olhar para eles quando se tem crianças pequenas envolvidas,
então meu marido os olha. Se o seu esposo (a) preferir não ter este gatilho
também, peça para um amigo ou membro da família para abrir e selecionar suas
cartas para você.
6. Sem desculpas, diga não para qualquer evento/encontros
que não soem bem para você. Eu recusei convites para drinks festivos, assar
cookies e festas de final de ano, e eu não tive vergonha em ser honesta com as
minhas razões: eu estava escolhendo ignorar as festas de final de ano porque
elas me machucavam muito. Todo mundo entendeu, e eu me senti melhor sendo
honesta do que inventando uma desculpa.
7. Não se sinta forçada a passar por cima das suas emoções.
Eu nunca imaginei, até o último ano, quantas pequenas tradições eu tinha no
final do ano que afetavam meu dia-a-dia do final de novembro até janeiro. Eu
sempre ouvia nada além de música de Natal do final de semana de Ação de Graças
até o dia de Natal. Eu celebrava a chegada dos copos vermelhos e das bebidas
festivas do Starbucks, e enviava cartões de Natal para um grande número de
familiares e amigos. Eu não fiz nada disto ano passado. Se eu ia ao Starbucks,
eu não pedia as bebidas festivas, e colocava a bebida em uma caneca diferente
ou usava minha luva da Gilmore Girls para cobrir o copo J. Nós não mandamos nenhum
cartão, e eu evitei todas as músicas de Natal. Este estado de negação sobre a
época de Final de Ano foi a única maneira com a qual eu consegui passar aquelas
semanas sem cair completamente em depressão.
8. Mude sua rotina de final de ano. Viaje, vá para outro
lugar ou fique com pessoas diferentes, peça ou dê doações para caridade ao
invés de presentes, etc. Não faça nada disto se não puder. Nós viajamos no
Natal, e sair da rotina normal me permitiu sentir um pouco mais animada, sem o
sentimento de que nós estaríamos fazendo a mesma coisa com o Jacob, mas sem
ele. Nós fomos à igreja, mas não na que costumávamos ir. Nós tivemos um jantar
de Natal em um restaurante em nosso destino de viagem, ao invés de ir ao nosso
tradicional jantar de família. Nós pedimos doações para caridade ao invés de
presentes. Esta foi a maneira que pareceu correta para nós, mas tiveram vários
momentos difíceis nos quais percebemos que não importa o que, sempre era errado
sem o Jacob.
Eu não estou fingindo que passar pelo final do ano será
fácil. Não será, se você está no luto recente, ou a muitos anos nele. Eu não
penso que um dia se tornará confortável celebrar as festas sem um ente querido
(bebê ou não). Mas espero que estas dicas possam aliviar alguns pontos
desconfortáveis para você como fizeram para mim.
Você tem alguma dica para sobreviver às festas sem um ente
querido? Por favor compartilhe nos comentários se você se sentir confortável
para fazer isto! Estou mandando muito amor para você nesta época de festas!
Autoria: Elizabeth Yassenoff
Tradução livre: Stephanie Oliveira
Texto original em inglês no blog Carrying Jacob.
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