terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Perda gestacional na cultura japonesa e o Mizuko Kuyo



Primeiramente gostaria de dar um breve relato de minha experiência como mãe de anjo. Após nove anos de relacionamento, eu e meu companheiro decidimos que finalmente era hora de ter nosso filho. Então nos informamos e planejamos tudo para ter nosso bebê. Não demorou para ter o nosso positivo, fizemos os testes de farmácia juntos e comemoramos o resultado. Desde este dia nossa vida mudou, estávamos muito felizes! Fomos no obstetra juntos, ele me acompanhou nas ecografias. Mas infelizmente também houve muitas brigas com membros da minha família, o que me gerou certa angústia durante a gravidez.

Na 6ª semana de gestação tive um pequeno sangramento, mas como parou continuei a levar a gravidez. Duas semanas se passaram e tive outro sangramento mais forte e corri para o hospital. Chegando lá meu sangramento parou e meu colo estava fechado. Como no outro dia já tinha uma ecografia marcada, os médicos disseram que eu a fizesse e já sondasse se algo tinha acontecido. E durante o exame a fatídica notícia; havia um saco vitelínico, mas o embrião não se desenvolveu e eu estava abortando. Como o aborto estava retido, tive que fazer uma curetagem entre a 8ª e a 9ª semana de gestação.

Eu e o pai do meu filho ficamos arrasados! Até hoje choramos quando lembramos de tudo que passamos. Decidimos que não íamos passar por cima do sentimento de luto, pois este bebê foi muito especial para nós. Para mim foi um bebê que trouxe muitos ensinamentos, pois me levou a ter muitos insights sobre a vida, ainda mais que na época iniciei um curso sobre introdução ao budismo com uma mestre Zen.

Um dia, quando completava 4 semanas após a curetagem, senti novamente uma tristeza e procurei algum conforto em grupos de apoio a perda gestacional na internet. Me deparei com uma matéria que me chamou muito a atenção por ter muito a ver comigo e com o momento que passava. Tal matéria caiu em cheio e me deu um certo consolo, ela tratava de uma prática japonesa que tem como objetivo prestar homenagem aos fetos abortados. Compartilhei isto no grupo fechado do SobreViver no Facebook e percebi que várias mães de anjo se sentiram confortadas em saber que em algum lugar no mundo a perda de uma gravidez é tratada de forma tão respeitosa. Tanto que me pediram para escrever a respeito. Então, vamos lá!

O Mizuko Kuyo é ritual da tradição do budismo japonês, uma cerimônia feita em memória de bebês perdidos em qualquer fase da gestação, no parto e depois dele. No ritual, a imagem de um "Mizuko" ("filho das águas") colocada em um santuário, é visitada pelas pessoas que tiveram a perda e que nela deixam um objeto - roupinha, brinquedo, uma lembrança - e fazem preces com a supervisão do monge. Os Mizukos ficam num local dedicado a Jizô Bosatsu, entidade muito querida no budismo japonês que, entre muitos atributos, é considerado o guardião das crianças.


A prática tem várias funções: reatar a conexão com o ser perdido (como em outros rituais feitos para os ancestrais), elaborar o luto parental, pedir pelo conforto da alma do bebê e proteção para a família e até uma forma de expiar a culpa. Para as perdas gestacionais muito precoces, ou que não se tem funeral, o ritual ajuda a materializar a perda e a trabalhar melhor o processo de luto.


O nome “Mizuko” literalmente significa “criança d'água”. Existe uma longa explicação para a origem deste termo, mas não me deterei nestes detalhes. Em resumo, é uma referência ao líquido amniótico e também porque água representa vida e purifica. Os Mizuko são puros e não tiveram tempo de gerar karma, a perda tanto de um feto como de bebê recém-nascido é uma oportunidade perdida deste trilhar o caminho do Dharma (caminho para iluminação), por isto esta perda é tão lastimada. O Jizo Bosatsu se encarregará de vigiar os bebês e de facilitar o caminho deles até o céu. Os monges recomendam aos pais cuidarem dos Mizuko, rezarem sutras, enviarem sentimentos de amor e alegria para que aonde estiverem eles possam senti-lo.





A prática varia conforme a escola de budismo, mas basicamente tem o mesmo fim. Ao invés de ser uma coisa mórbida, os locais aonde se encontram os Mizuko são lugares bem alegres, alguns tem até playground para as crianças brincarem. Como já mencionei, a angústia não é recomendada, pois pode atrapalhar o bem-estar dos Mizuko. Para estes sentimentos de angústia, pesar e culpa há sempre a orientação dos monges que se colocam disponíveis para ouvir e aconselhar os pais.

Acredito que a prática do Mizuko Kuyo possa servir de inspiração para muitos pais que tiveram perda gestacional, permitindo criar uma forma de lidar com a perda e trabalharem o luto, seja fazendo uma tatuagem, plantando uma árvore, acendendo uma vela. Aqui na nossa sociedade temos uma grande dificuldade de externar esta perda. Além disto temos que lidar muitas vezes com a falta de sensibilidade e empatia. Simplesmente calamos nossa tristeza no coração e seguimos em frente. A exemplo dos japoneses poderíamos criar nossos próprios rituais para celebrar este Ser que esteve em nós e foi tão desejado. Tal prática pode tornar a dor da perda menos insuportável.




Minha perda gestacional me ensinou muita coisa e gostaria de dar um recado a todas as mães que passaram por isto. Não se envergonhem de chorar ou de sentir saudade dos seus anjos. Não sintam culpa da tristeza, ela é normal. Eu sinto saudades do meu bebê, mesmo que não tenha crescido, pois o simples fato de saber que ele "viria" mudou minha vida, portanto não posso trata-lo somente como um embrião que fracassou, mas como um SER que foi muito amado. Nós, budistas, celebramos o luto de uma forma um pouco diferente. Para nós, a morte é apenas uma mudança, uma passagem, não propriamente um fim, pois vida e morte fazem parte de um ciclo natural. Não negligenciamos as perdas, a sentimos e choramos, homenageamos os que partiram e, principalmente, os honramos com muitas celebrações. Este ser que um dia esteve em você, não só no seu ventre como em seu coração, não deve ser largado ao limbo do esquecimento, ele deve ser muito HONRADO. Cada momento é único, cada gravidez é única, cada bebê é único. Nenhuma perda se compara a outra, pois só quem passa pelo sofrimento sabe de sua dor. Portanto, honre seu Anjinho como um Ser único, com muito amor, carinho e respeito.

Cuidem-se bem mães e pais e cuidem de seus Anjinhos (ou Mizukos).

Autoria: Adriana Tanaka


Sugestões de vídeos, enviadas pela autora, sobre esta linda tradição budista


Vídeo informativo do templo Zenshoji (Budismo Shingon) que realiza o ritual do Muzuko Kuyo. É possível ter uma ideia de como é feito a cerimônia:


Vídeo de um desenhista de Anime Independente que, inspirado pela história de perda gestacional de sua mãe, fez esta história linda. Nele, se conta a historinha de uma mãe e seu Mizuko. Outro dia parei para ver os comentários em japonês e acredite, as mães japonesas têm sentimentos muito parecidos com as mães ocidentais:


Vídeo que mostra o templo de Zojo-ji, em Tóquio, no Japão, que foi criado exclusivamente para os Mizuno:






quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Por que comigo, por que com meu bebê?


Essa pergunta martelou em minha cabeça insistentemente a cada dia que se seguiu após a morte da minha menina.

Desejei tanto aquela gravidez! Queria tanto aquele bebê! Sonhava em tê-la nos braços e exibi-la ao mundo com o dobro de orgulho que exibia a minha barrigona! Planejei cada detalhe, desde as roupinhas ao primeiro passeio. O quarto, a escola em que estudaria, os passeios que faríamos juntas. Como seria nosso primeiro Natal ou seu primeiro aniversário. Já suspirava de imaginá-la engatinhando pela casa e rindo sapeca para mim.

Mas tudo isso desmoronou em segundos! Nada foi do jeito que eu imaginei. Nem de longe.

A primeira vez que a tive em meus braços ela já não respirava. Mesmo assim a aninhei em meu colo e tentei segurar ali todos aqueles sonhos.

Eles não poderiam escapar! Nunca!

Mas, em poucos instantes a levaram de mim. Minha menina! Devolvam ela! Digam que está tudo bem e que foi um engano, por favor! O bercinho está pronto esperando por ela, com uma boneca que eu e seu pai compramos! Os brinquedos na estante, as roupinhas no armário.

Mas, contra minha vontade, precisei engavetar também os meus sonhos. Todos aqueles que contava os segundos para acontecer e que não consegui segurar em meus braços. Por mais que eu gritasse em silêncio. Por mais que eu implorasse para que ficassem, eles se foram. Um a um. E eu fiquei aqui. Na maior solidão do mundo.  Com os braços e o coração vazio. Vazio e em pedaços. Dilacerado...

E a dor me rasgou ao meio. A pior dor que eu já senti. Por quê? Por quê? Meu bebê tão amado e desejado! Por que comigo? Como eu iria viver sem ela? Sem uma parte minha, sem um pedaço meu.

Sentia o peito esmagado e faltava o ar. Faltava o ar e a vontade de continuar vivendo. O que seria de mim? Nada fazia mais sentido. O chão havia se aberto num buraco sob meus pés. Como viver agora?

Os dias se passaram. Um a um. Doloridos numa dor sem fim. Sufoco. Engasgo. Sem luz, sem vida, sem sentido...

A vida seguia lá fora. O mundo não parou por causa da sua partida. Como não? Como as pessoas conseguem continuar respirando se minha menina não está mais aqui? Barulho na rua, festa, buzinas e rojões. Por que festejam? É Copa do Mundo, eu sei. Mas a camisetinha da seleção que eu comprei para ela ainda está lá, dobradinha na gaveta. Perfumada. Sem uso. Na mesma gaveta que eu ainda não tive coragem de mexer. Aquele cheirinho de bebê nas roupinhas. O frescor do sol nos lençóis ainda se fazia presente. Por que comigo? Por que com o meu bebê?

Desde aquele 11 de abril de 2014 que carrego essas perguntas aqui dentro. Já pesaram como uma grande pedra presa às minhas costas. Hoje, como pedregulhos no bolso. Mas estão lá e me cutucam vez em quando. Uns dizem ser missão, karma, destino. Eu não sei. Para mim aconteceu e pronto. Sem motivo algum. Se tem alguma resposta certa? Não importa mais. Nada pode apagar o que vivemos nem o que aconteceu com minha filha. Então sigo. Da melhor forma possível. Sei que nunca mais serei a mesma. O amor me transformou! O amor que transborda do peito me faz ver a vida hoje de outro jeito. Algumas vezes (ou muitas, confesso), preto no branco. Em outras (e que bom!), vejo muitas e muitas cores! São 3 anos, 7 meses, 23 dias e 18 horas sem minha menina. E o amor só aumenta a cada dia. Que eu possa ser alguém melhor. Procuro ressignificar o que aconteceu comigo ajudando outras mães que se despedem tão cedo de seus amores. Desejo que esse amor imenso, arrebatador, alcance muitas pessoas. Quero dar à morte da minha filha um propósito, um significado. Pois foi com a chegada dela e com sua breve estadia que aprendi que esse amor só multiplica. Diariamente. Que cuidar de outras mães seja a minha cura!

Autora: Flávia Cunha

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

10 razões para amar meu grupo de apoio



Esta é minha declaração de amor a todos os pais e mães que conhecem a dor de perder um filho. Eu quero que eles saibam porque eu os amo.

Eu amo meu grupo de apoio porque…

1- Eles me chamam de Mãe.
Depois de perder uma criança, você deseja a chance de ser a mãe ou o pai que você sonhou que seria. Estas são as pessoas que veem você como você é; os pais do seu lindo bebê.

2- Eles são criativos.
Eu fico constantemente impressionada com o talento que o grupo de apoio possui. São pintores, fotógrafos, escritores, artistas visuais, joalheiros entre nós. Cada faísca de sua criatividade é iluminada pelo amor aos seus filhos.

3- Eles são atenciosos.
Mesmo quando o seu próprio fardo é pesado, eles nunca hesitam em ajudar os outros a carregar sua carga.

4- Eles olham para a vida de forma mais bonita.
Olhar através das lentes de um coração partido faz você enxergar coisas extraordinárias.

5- Eles não me deixam acomodar.
Quando a morte de um filho toca a sua vida, você percebe o quão importante é nunca deixar nada para trás. Meu grupo de apoio quer que eu aproveite cada oportunidade e que eu nunca sacrifique o meu amor próprio.

6- Eles estão sempre lá. Literalmente.
Nosso grupo de apoio abrange o globo. Existe um membro em cada fuso horário. Isso significa que, a qualquer momento, alguém está lá quando a gente precisa.

7- Eles são ferozes. Sério.
Não mexa com a gente. Nós somos o grupo de pessoas mais fortes que eu conheço.

8- Eles são vulneráveis.
Todo dia eles encaram o mundo de braços abertos e emoção em carne viva. Ser vulnerável assim, requer um poder além da medida.

9- Eles são os pais mais maravilhosos.
Ser mãe e pai de uma criança que você não pode abraçar ou ver é o trabalho mais difícil que existe, mas o meu grupo de apoio faz isso com muita graça e ânimo. Nossos bebês são muito amados.

10- Eles conhecem.
Minha história, minha dor, meu amor pelo meu bebê; eles sabem de tudo isso.


Autoria: Rachel Whalen – publicado no blog An Unexpected Family Outing